Jornal João de Barro - nº268 outubro/2002
roteiro cultural

CINEMA
SOM E FÚRIA



Depois de uma vitoriosa passagem pelo Festival de Cannes, onde foi fulminado pelos holofotes do principal festival de cinema do mundo, Cidade de Deus est· conquistando o pÿblico brasileiro. Em pouco mais de duas semanas de exibiÁ„o, cerca de 430 mil espectadores foram jogados no torvelinho de violência e ironia que compõe a receita básica do novo filme de Fernando Meireles, baseado no romance homÙnimo de Paulo Lins.
Desta vez, Meireles foge dos estereótipos que ele perigosamente perseguiu em Domésticas para centrar-se nas desventuras vividas por alguns dos habitantes da Cidade de Deus, conjunto habitacional criado em meados dos anos 60 em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, para abrigar vítimas das constantes enchentes que castigaram o estado naquele período. Acompanhando esses personagens dos anos 60 atÈ inÌcio dos 80, Cidade de Deus vai revelando a escalada da violência, os meandros do tráfico de entorpecentes e o inchaço crescente da favela que dá nome ao filme.

Vigoroso como um filme de Scorcese e cáustico como os primeiros filmes de Tarantino, Fernando Meireles busca no formato pop uma linguagem própria para retratar a multifacetada comunidade de Cidade de Deus. Nela, Buscapé conta a sua trajetória desde a infância como vendedor de peixe até a vida adulta como fotógrafo aprendiz em um grande jornal carioca. Mas em vez de deter-se somente em seu cotidiano, Buscapé vai narrando a vida de outros ilustres moradores da Cidade de Deus, como Zé Pequeno e Bené, que representam o oposto e a complementaridade da vida criminosa que serve como uma das opções aos moradores da periferia. Entre seus trunfos, e Cidade de Deus os tem, e muitos, está a imparcialidade com que trata seus personagens. Mesmo o aterrorizante Zé Pequeno, um monstro que sociólogo algum conseguiria explicar, È retratado sem nenhum peso moral, sem nenhum psicologismo. Ao espectador édeixado concluir, preencher as lacunas, seguindo seus parâmetros morais. Outro ponto forte é o roteiro enxuto que, mesmo desenvolvendo inúmeros personagens, não se perde na miríade de tramas e subtramas que apresenta nas mais de duas horas de projeçãoo. Aí que surgem as influências da cultura pop, onde a edição frenética, os cortes nos momentos exatos e as gags visuais só acrescentam no fluxo da trama.De todas as crÌticas que o filme tem sofrido, a única que não procede é que seja cheio de firulas. Não há tempos mortos, nenhum efeito é desnecessário, nenhum movimento de cmera se mostra demasiado. Como os melhores filmes america- nos, e esta sim é uma das críticas mais enunciadas, Cidade de Deus jamais foge de seu objetivo. Mesmo assim, crÌtica e público parecem satisfeitos com o resultado final. Apesar de considerado inválido como análise sociolôgica, afinal a periferia È mostrada como um mundo fechado, deve-se convir que nenhum filme deve pretender- se como estudo de sociologia. Entretanto, isso não invalida Cidade de Deus como obra das mais vigorosas do cinema contemporâneo nacional. Assim como Baile Perfumado, o filme, mesmo quando erra, demonstra vivacidade como há muito não se via nesta cinematografia cada dia mais influenciada pela TV e sua quadrada padronização.Tanto o que falar... Grande sucesso de vendas em 1997 e saudado como entre as melhores obras literárias da década de 90, o livro Cidade de Deus está sendo relançado em edição revisada juntamente com o lançamento do filme. Em vez das mais de 500 páginas originais, Paulo Lins (44 anos) revisou seu romance e o remodelou para uma edição de 406 p·ginas. Quando do lançamento da nova edição, Lins revelou que as modificações ocorreram por causa do mercado internacional, já que as traduções estavam muito difíceis por conta do extremo coloquialismo das expresses usadas. Paulo Lins então as modificou e aproveitou para fazer a 2º edição já com o formato internacional. Mesmo assim, os mais de 300 personagens permaneceram, os inúmeros casos violentos continuam assustando o leitor mais sensÌvel e o retrato cruel da periferia do Rio de Janeiro permanece aterrador.

Os nomes desta nova edição foram modificados, o que permite também um maior distanciamento com o filme homÙnimo. E n„o estranhe se algumas situações lhe parecerem familiar, só que na pele de outro personagem. Bráulio Mantovani, roteirista de Cidade de Deus, agrupou situações e personagens em um único e transformou personagens anteriormente menores em quase protagonistas. … o caso de Buscapé, que no livro ocupa menos de 80 páginas e no filme é o narrador e virtual protagonista da trama. Também diferente do filme, o romance de Paulo Lins éum imenso painel do conjunto habitacional que não se centra em personagem algum e sim diverge para as inÿmeras facetas do cotidiano da comunidade nas últimas três décadas do século XX. Semelhante ao filme, há os diálogos, que sã exemplo acabado da linguagem irônica e algo musical da periferia do Rio e a tragédia quase gráfica do dia-a-dia de uma realidade que parece distante dos ìburguesesî, mas que cada dia está mais presente na vida de qualquer grande cidade.


Márcio Dutra