| Jornal
João de Barro - nº268 outubro/2002 roteiro cultural |
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| CINEMA
Vigoroso como um filme de Scorcese e cáustico como os primeiros filmes de Tarantino, Fernando Meireles busca no formato pop uma linguagem própria para retratar a multifacetada comunidade de Cidade de Deus. Nela, Buscapé conta a sua trajetória desde a infância como vendedor de peixe até a vida adulta como fotógrafo aprendiz em um grande jornal carioca. Mas em vez de deter-se somente em seu cotidiano, Buscapé vai narrando a vida de outros ilustres moradores da Cidade de Deus, como Zé Pequeno e Bené, que representam o oposto e a complementaridade da vida criminosa que serve como uma das opções aos moradores da periferia. Entre seus trunfos, e Cidade de Deus os tem, e muitos, está a imparcialidade com que trata seus personagens. Mesmo o aterrorizante Zé Pequeno, um monstro que sociólogo algum conseguiria explicar, È retratado sem nenhum peso moral, sem nenhum psicologismo. Ao espectador édeixado concluir, preencher as lacunas, seguindo seus parâmetros morais. Outro ponto forte é o roteiro enxuto que, mesmo desenvolvendo inúmeros personagens, não se perde na miríade de tramas e subtramas que apresenta nas mais de duas horas de projeçãoo. Aí que surgem as influências da cultura pop, onde a edição frenética, os cortes nos momentos exatos e as gags visuais só acrescentam no fluxo da trama.De todas as crÌticas que o filme tem sofrido, a única que não procede é que seja cheio de firulas. Não há tempos mortos, nenhum efeito é desnecessário, nenhum movimento de cmera se mostra demasiado. Como os melhores filmes america- nos, e esta sim é uma das críticas mais enunciadas, Cidade de Deus jamais foge de seu objetivo. Mesmo assim, crÌtica e público parecem satisfeitos com o resultado final. Apesar de considerado inválido como análise sociolôgica, afinal a periferia È mostrada como um mundo fechado, deve-se convir que nenhum filme deve pretender- se como estudo de sociologia. Entretanto, isso não invalida Cidade de Deus como obra das mais vigorosas do cinema contemporâneo nacional. Assim como Baile Perfumado, o filme, mesmo quando erra, demonstra vivacidade como há muito não se via nesta cinematografia cada dia mais influenciada pela TV e sua quadrada padronização.Tanto o que falar... Grande sucesso de vendas em 1997 e saudado como entre as melhores obras literárias da década de 90, o livro Cidade de Deus está sendo relançado em edição revisada juntamente com o lançamento do filme. Em vez das mais de 500 páginas originais, Paulo Lins (44 anos) revisou seu romance e o remodelou para uma edição de 406 p·ginas. Quando do lançamento da nova edição, Lins revelou que as modificações ocorreram por causa do mercado internacional, já que as traduções estavam muito difíceis por conta do extremo coloquialismo das expresses usadas. Paulo Lins então as modificou e aproveitou para fazer a 2º edição já com o formato internacional. Mesmo assim, os mais de 300 personagens permaneceram, os inúmeros casos violentos continuam assustando o leitor mais sensÌvel e o retrato cruel da periferia do Rio de Janeiro permanece aterrador.
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