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João de Barro - nº268 outubro/2002 caminhos |
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uma vida mais saudável Produção e consumo de produtos agroecológicos aumentam em todo o mundo. O Rio Grande do Sul é referência nos caminhos para uma alimentação mais sadia.
"Os olhos do mundo estão voltados para o Rio Grande do Sul. Vocês estão lançando a semente de uma modernidade diferente, o caminho para uma sociedade sustentável". A afirmação é de Victor Manuel Toledo, professor da Universidad Autó-noma de México, em palestra realizada em Porto Alegre durante o II Seminário Internacional sobre Agroecologia, realizado em Porto Alegre em novembro do ano passado. A afirmação de Toledo reflete o grande esforço que vem sendo feito no estado, tanto pelo governo quanto por organizações de produtores e de consumidores, para expandir a produção de alimentos sem utilização de adubos químicos e de agrotóxicos e para promover a integração entre agricultura, pecuária e preservação do meio ambiente. Há cerca de três anos, os produtores ecológicos eram pouco mais de mil em todo o estado. Um levantamento da Emater sobre a oferta de produtos orgânicos e ecológicos apontou um aumento considerável do setor. Existem cerca de 3,7 mil famílias produzindo a partir de técnicas ecológicas, em uma área de 13 mil hectares em 162 municípios. As culturas são bastante variadas, mas o destaque é dos hortigran-jeiros, com uma área de 1,9 mil hectares e o envolvimento de 2,1 mil famílias, e dos grãos, com uma área de 5,5 mil hectares e 900 famílias produtoras. São cultivados produtos os mais diversos, como citros, uva, pêssego, figo, morango, tomate, pepino, batatas, folhosas, soja, milho, feijão e arroz. A perspectiva de mudanças no cenário da produção de alimentos é recente e precisa quebrar uma tradição plantada nos anos 70. Naquela década o mundo foi assolado pela chamada "revolução verde", que consistia na idéia de aumentar a produção agrícola a qualquer preço. A mecanização das lavouras e o uso de defensivos e adubos químicos foram incentivados pelos governos e pelas empresas multinacionais. O saldo trágico dessa onda nefasta é colhido até hoje. Mesmo os pequenos agricultores, que usavam apenas a enxada e o próprio trabalho da família para limpar a lavoura, foram seduzidos pelas facilidades apresentadas pelos defensivos químicos. As poucas vozes que se levantaram contra a "revolução verde" foram taxadas na época de retrógradas. Mas o movimento pelo desenvolvimento de uma agricultura e pecuária em harmonia com o meio ambiente começou a ganhar força na década de 90. A preocupação com os prejuízos causados à saúde humana pelo uso de agrotóxicos na produção de alimentos aumentou e tornou-se pauta de inúmeros debates em todo o mundo. Em Ve-nâncio Aires (RS), por exemplo, o elevado número de suicídios foi atribuído aos efeitos colaterais provocados pelos agrotóxicos utilizados na cultura do fumo. Já na Inglaterra, a preocupação com a doença da vaca louca também assustou. Lá, o ditado "há males que vêm para o bem" parece ter encontrado um exemplo real, visto que o susto reverteu no aumento do consumo de produtos orgânicos em mais de 30%. Estima-se que a produção agrícola orgânica na Europa atinja atualmente 10% do total. Até mesmo nos Estados Unidos, país que lidera o uso de agrotóxicos e a produção de transgênicos no mundo, o cultivo ecológico passou de 1% para 10% em dez anos. Um levantamento mais recente da Emater entre os agricultores assistidos pela instituição aponta um bom percentual deles que está em fase de transição para a agroecologia, isto é, estão realizando processos de substituição de insumos químicos por insumos alternativos de base ecológica. Entre os 80 mil produtores de milho, 17 mil estão em transição. Na cultura da soja, 27 mil permanecem no sistema convencional, enquanto sete mil estão em transição. Entre os produtores de feijão, 16 mil permanecem no sistema convencional e sete mil estão em transição. No lado dos consumidores, os números também são animadores. Segundo a Emater, existem no estado 130 feiras ecológicas com a participação de 872 produtores assistidos pela instituição. A demanda dos consumidores ocasionou outro fato positivo: os supermercados passaram a instalar gôndolas com oferta de produtos orgânicos. Além de feiras e supermercados, os produtores ecológicos também ganham espaço em grandes eventos como a Expointer e o Fórum Social Mundial, durante o qual funcionou a Feira da Agricultura Familiar o Espaço de Alimentação Saudável. A julgar pelos dados, o futuro da agroe-cologia parece ser promissor. Saem ganhando produtores, consumidores e o meio-ambiente. Texto
Jair Giacomini A reportagem desta página é a primeira de uma série que o jornal João de Barro vai publicar sobre a agroecologia. Acompanhe nas próximas edições: os prejuízos dos agrotóxicos para a saúde e o meio ambiente, experiências de agricultura ecológica, sítios ecológicos para conhecer e um mapa das feiras ecológicas no RS. |
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