Jornal João de Barro - nº268 outubro/2002
enfoque

OPINIÃO
O Cristo marxista

Era uma noite de decisão no Campeonato Brasileiro. Ao invés de ficar em casa, olhando a tevê, através do cômodo pay-per-view, bem ao estilo do burguês saciado, quem sabe comendo uns pasteizinhos e tomando um cerveja gelada, enquanto o pessoal se apertava na arquibancada lotada, eu decidi, em coerência com minhas origens populares, ir ao estádio, mesmo sob a ameaça da intempérie. Perto de mi havia uma dessas barulhentas "torcidas organizadas", composta de jovens, adolescentes, meninos. Um deles, de uns quinze anos, portava uma enorme bandeira com as cores do Grêmio, tendo no centro o rosto de Che Guevara, com a clássica boina guerrilheira, na cor azul, é claro, cuja estampa corre o mundo, como um sinal de inconformidade contra a acomodação das devastadoras elites "liberais". "Quem é esse aí?" perguntei, me fazendo de desentendido. O menino me olhou fixo, como que descrente da minha ignorância, e disse: "Esse é o CHÊ - acentuando a pronúncia - o maior guerrilheiro das Américas. É um libertador...". Quando terminou o jogo, voltei para casa juntando idéias para uma reflexão sociopolítica. Havia dois dados relevantes: aquele garoto quando nasceu, fazia 15 anos que Ernesto "Che" Guevara tinha morrido e, quem teria contado a ele as lutas do médico argentino que se tornou guerrilheiro? Antes já houvera, por parte da diretoria (elitista, por supuesto) de um outro clube, a proibição de que associassem a imagem do clube com a do Che. Não foram atendidos, e a massa continua festejando, o clube e o mito. É curioso como a juventude se associa à reflexão moderna em torno desses idealistas. Che Guevara é hoje tão celebrado como Madre Teresa, Dom Helder, Nelson Man-della, Bob Marley e Gandhi. É o carisma da pessoa, colocando-se acima de ranços ideológicos e objeções burras. Os reacionários acusam-no de sanguinário, de comunista (só faltam dizer que "come criancinha") ou agitador. Mas esquecem de dizer que os ditadores brasileiros (a quem eles apoiaram, com aplauso, voto indireto ou silêncio) também foram sanguinários (e fugiram do braço tênue da lei), e que Cristo e Gandhi também agitaram. Por certo gostariam que Guevara ficasse lá nos ínvios argentinos, num consultório, sem ousar, sem transcender, para não se tornar o ícone (que incomoda) da juventude que é hoje. Há tempos, os jornais abriram grandes manchetes sobre os trinta anos da morte de Guevara nas selvas da Bolívia. Olhando a foto de seu cadáver, a gente não pode deixar de fazer uma ligação com a figura de Cristo: recostado, olhos semicer-rados, barba em desalinho e lábios entreabertos, numa fisionomia serena. Há, curiosamente, no peito, perto do coração, um ferimento per-furante. A ilação não foi só minha. O jornalista Tomáz Martinez, do La Nación, de Buenos Aires, autor de Santa Evita, referiu-se ao que ele chama de Cristo-Comunista, como um dos maiores ícones ideológicos da América Latina. Recordou que, em 1968, no auge da repressão brasileira (quando pensar era um defeito letal), discursando aos jovens, em Paris, Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, afirmou (a mídia brasileira, subserviente aos militares não divulgou aqui) que "... só uma classe de homens, aqueles de visão planetária e de coração universal, poderão consumar o milagre de apagar as desigualdades entre raças, sexos e classes, entre submissos e insubmissos, ilustrados e iletrados. Só poderão consegui-lo aqueles que sejam violentos como os profetas, justiceiros como Guevara, verdadeiros como Cristo". Em Compañero, uma biografia mais recente, autoria do escritor Jorge Castañeda, ele entrevista o alemão Henrich Böll, Prêmio Nobel de Literatura, que se refere à última refeição de Guevara cativo. Poucas horas antes de sua execução sumária, numa analogia com a cruz, quando o guerrilheiro teria recusado uma sopa oferecida, por causa do vinagre. A verdade é que a foto de Guevara morto, inexplica-velmente, traz consigo um ponderável apelo místico. Parece fazer a separação entre a brutalidade do auto-ritarismo de todos os tempos e os eternos anseios liber-tários do homem novo. "Com Guevara, afirma Böll, todos nos libertamos, e asseguramos o direito de questionar a autoridade e a dissentir". Ideologias à parte, a verdade é que Che Guevara passou para a galeria dos mitos, junto com Zapata, Sandino, Vargas, Evita, Neruda, Gai-tán, Borges e tantos outros, em um continente tão carente de verdadeiros líderes. Os anos sessenta, encarnados da rebeldia de Che, deixaram uma herança irreversível de liberdade em todos os segmentos do mundo inteiro. Não se faz julgamentos históricos, ainda mais de idealistas ou de mitos populares, sob pena de erro ou retratação. Felizmente a política não é o tribunal onde se julga a história. O comunismo acabou. O marxismo mostrou-se insuficiente para a complexidade da vida humana, mas a figura de Che Guevara não cessa de encarnar o desejo humano, seja de libertação, seja de mudança. O fato é que, trinta anos depois, para contrariedade de alguns, Guevara continua vivo. Como que ressurrecto. Talvez por isso, o jovem torcedor, vanguarda dos novos ideais libertários, tenha ficado tão espantado com minha pergunta.

Antônio Mesquita Galvão Aposentado da Caixa, professor de Ciência Política, Filósofo e escritor.

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Participe das festas programadas para os próximos meses na APCEF.
15 de novembro - Abertura das Piscinas
30 de novembro - Natal da Gente
8 de dezembro - Natal das Crianças