Jornal João de Barro - nº268 outubro/2002
entrevista

A vez de Tarso Genro

O candidadato da Frente Popular ao governo do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fala sobre os seus compromissos para governar o estado se for eleito governador no dia 27 de outubro.

João de Barro - Qual a sua expectativa em relação ao segundo turno?
Tarso Genro - Nossa expectativa é vencer, sem dúvida. E para vencer nosso adversário nós vamos, a partir do maior tempo nos programas de televisão e rádio, mostrar o conjunto de realizações do nosso governo, que consideramos avanços significativos para o povo gaúcho. Ainda que não tenhamos realizado tudo o que desejávamos e o que seria suficientemente necessário para superar vários problemas do nosso estado. Igualmente, apresentaremos nossas propostas para o futuro do Rio Grande que permitirão ao nosso segundo governo fazer mais e melhor para os cidadãos rio-grandenses. Por outro lado, queremos que o eleitor e a eleitora compreendam estas propostas dentro de um projeto nacional de reconstrução e mudança do país, com a vitória do companheiro Lula para a presidência da República. Um projeto nacional que as nossas experiências administrativas em nossas prefeituras e no governo do Estado, ao lado da participação da população que constantemente as aperfeiçoa e qualifica, são protagonistas deste projeto. Ou seja, o povo gaúcho foi importantíssimo para a construção deste projeto que transformará o Brasil. Nada mais natural, neste contexto, a compreensão de que a continuidade da aplicação deste projeto no Rio Grande seja absolutamente benéfico para o estado e para o nosso povo.
Esta eleição nos proporcionará um profundo debate sobre as diferenças de projeto, entre o nosso e o que foi aplicado em nível nacional a partir do governo FHC, do qual o nosso adversário foi líder na Câmara dos Deputados e responsável por sua política, e o do governo anterior dirigido pelo seu partido, o PMDB. Consideramos que esta comparação permitirá que os eleitores optem por aquele que nos levou ao crescimento econômico com justiça social e democracia.

JB - O que o povo gaúcho pode esperar do governo Tarso Genro? Quais serão as prioridades do seu governo?
Tarso Genro - A síntese do nosso programa de governo é desenvolvimento com democracia e inclusão social. Para nós da Frente Popular, o desenvolvimento envolve mais do que a simples perspectiva de aumento da produção. Contempla, também, a redistribuição de renda, sustentabilidade ambi-ental e inclusão solidária. Por isso ganha importância em nossa estratégia de governo o fortalecimento da matriz produtiva gaúcha, através de investimentos específicos para estimular os nossos produtores industriais e agrícolas e os nossos empreendedores do setor de serviços. A criação de um mercado interno de massas é um elemento central da nossa estratégia de desenvolvimento, pois ao aumentar o poder de compra da classe trabalhadora estaremos gerando mercado para expandir a produção, estimulando o crescimento econômico e a geração de empregos.
Nosso projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos nossos compromissos sociais. Além de aprimorar e qualificar os serviços essenciais prestados pelo Estado, que manterá seus compromissos com o atendimento integral aos cidadãos através de políticas públicas de educação, saúde, habitação e segurança, o Estado deverá dar especial atenção às políticas de combate à pobreza. Programas do atual governo de atendimento às populações mais desamparadas, em situação de risco, como o programa de renda mínima (Família Cidadã) serão mantidos e qualificados. Estes aspectos, em nosso programa de governo, se combinam com um sistema democrático de participação popular, pelo qual a população exerce a sua cidadania e pode intervir nos rumos da sociedade.

JB - Qual a sua proposta para continuar a desenvolver o Estado?
Tarso Genro - Isto já foi parcialmente respondido na questão anterior, mas quero acrescentar que são destaques entre nossas propostas a criação do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico, unindo Estado e forças produtivas para constituir uma política de indução e fomento da economia gaúcha; do Gabinete de Estímulo ao Cooperativismo, ligado diretamente ao governador; o Programa Começar de Novo, visando gerar emprego para quem tem mais de 40 anos; o mutirão para superar o analfabetismo; a criação da Secretaria da Segurança Pública, separada da Secretaria da Justiça; a implantação da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e a renegociação da dívida do estado, que deverá ser facilitada com a eleição de Lula para presidente da República.

JB - Como fazer para diminuir as desigualdades regionais no RS?
Tarso Genro - A nossa proposta de desenvolvimento busca o crescimento da base produtiva já existente em cada região, baseado nos seguintes pressupostos: uma forte proteção, incentivo financeiro, tecnológico, observar a vocação econômico-social da região e instituir e fortalecer as cadeias agroindustriais. Foram criadas 133 mil empresas aqui no Estado nos últimos três anos e meio, o que é altamente positivo, e nossa política tributária tem que favorecer a emergência destas empresas nos locais onde o trabalho se realiza. Ou seja, nós temos que prestigiar o trabalho dos gaúchos e gaúchas de baixo para cima, o agricultor, o empresário local das regiões. Nós temos uma visão divergente de quem diz que a matriz produtiva do Estado é velha, que não serve mais e precisa ser mudada, daí que veio a idéia do Britto, com o apoio do Rigotto, de dar 500 milhões de dólares para a Ford. Nós não achamos que ela é velha, nós achamos que a nossa matriz produtiva é potente, que ela responde com rapidez e está bem distribuída no território gaúcho. Os fatos recentes comprovaram o diagnóstico de que nossa economia possui capacidade de resposta e de crescimento rápido. Afirmávamos que com uma política de fomento econômico - que passamos a implementar no governo do Estado - e com o fim da política cambial artificial era possível reverter a crise vivida de 1995 a 1998. A partir de 1999 isso aconteceu, o PIB do Rio Grande do Sul cresceu acima da média nacional, no ano 2000 tivemos o maior crescimento industrial do país, em 2001, tivemos a nossa maior safra de grãos da história - 20 milhões de toneladas - e conquistamos a segunda posição no ranking dos estados exportadores. No nosso segundo governo vamos incrementar ainda mais a economia gaúcha, alcançar patamares superiores de desenvolvimento e com isto gerar os empregos que precisamos.

João de Barro - Em entrevista ao João de Barro em julho, o senhor disse que quer fazer um Estado ainda mais ousado. Em que sentido é preciso ousar mais?
Tarso Genro - A partir do que foi assentado pelo nosso primeiro governo, com o companheiro Olívio Dutra, será possível partirmos para patamares ainda maiores de investimentos, políticas sociais e crescimento econômico dos que já foram alcançados. O estado, que já era uma referência para o mundo com a prefeitura, se consolida como um exemplo universal de democracia participativa e inclusão social. A partir deste protagonismo, desta visibilidade que o Rio Grande do Sul está adquirindo conosco no governo, o estado pode também passar a se beneficiar disto na captação de novos financiamentos, projetos e programas internacionais de nosso interesse.

João de Barro - Em artigo publicado na FSP em 4 de outubro, o sociólogo Boaventura Santos diz que uma vitória sua no RS é também uma vitória do mundo democrático. Qual a sua avaliação sobre essa declaração?
Tarso Genro - Creio que ele se referiu ao nosso modo de governar e aos nossos princípios, do PT, com relação a democracia e participação popular, que tem sido a nossa marca desde a prefeitura de Porto Alegre e no governo do estado. Na nossa concepção, os governantes não são seres com poderes absolutos e a vontade do povo não se extingue no instante seguinte ao seu voto. Conosco, o cidadão vota e depois tem todas as possibilidades de interferir e decidir os rumos da administração do município ou do Estado, através do Orçamento Participativo e vários outros mecanismos de intervenção dos cidadãos e cidadãs na vida pública, como os conselhos, os congressos e conferências de setores econômicos e segmentos sociais. Além disso, democracia para nós é também todos terem garantidos os seus direitos sociais básicos como educação, saúde, habitação, saneamento e serviços públicos eficientes. Nossa visão de mundo democrático não se esgota na eleição, apenas começa nela.

João de Barro - A participação popular é marca das administrações da Frente Popular. É isso que tanto os seus adversários temem: terem de ouvir as prioridades da população?
Tarso Genro - A tradição política do Brasil é profundamente autoritária. Nela o povo não tem vez, o voto é o máximo que a elite dominante concede à população em termos de democracia, mesmo assim com longas interrupções de regimes de exceção. Uma democracia capenga, que começa e termina na urna. Os governantes têm por costume se encastelar no poder com seus círculos mais íntimos e criam uma carapaça que os isola totalmente da vontade e das demandas mais urgentes do povo. Uma elite se preserva no comando da nação, dos estados, dos currais políticos, há séculos e governa apenas para um círculo restrito de interesses, com fisiologismo, corrupção e clientelismo. Quando se derrubam estas barreiras, quando se destrói a carapaça de proteção desse esquema todo, bate o pavor nos políticos que se acostumaram a governar só para si mesmos e seus amigos. Como trocar casa, comida, saúde, educação, por voto se agora as pessoas podem ter tudo isto sem pedir favor ao senhor deputado, ao senhor vereador? A democracia participativa é um golpe muito profundo numa forma de fazer política tão antiga que estava cristalizada e é lógico que isto gere incompre-ensões e reações muito fortes. Cabe a nós e à população não recuarmos e defendermos essa nova forma de fazer política, com participação e transparência.

João de Barro - Parte do eleitorado gaúcho ainda não se deu conta de que o projeto neoliberal é sustentado no RS por partidos como o PMDB?
Tarso Genro - É que parte do eleitorado não conhece meu adversário neste segundo turno, sabe vagamente que ele é deputado federal, mas ainda não fez a associação dele com o seu partido, PMDB, e do PMDB com os governos de FHC e de Britto. Uma das nossas funções neste segundo turno, em nossos programas, debates e materiais, é esclarecer a população sobre as razões da crise que vivemos, a partir da implantação do modelo neoliberal, com a participação ativa do PMDB e com Germano Rigotto como líder de FHC nos momentos mais decisivos de criação deste modelo, como as privatizações do petróleo, das telecomunicações e energia, as reformas administrativa e da previdência.

JB - Em seu projeto está previsto o Gabinete das Cooperativas. O que isso significa?
Tarso Genro - O Rio Grande do Sul conta com um sistema de cooperativas que têm grande importância econômica e social para o Estado. Além de garantir eficiência, a coopera-tivização introduz uma lógica específica nas relações econômicas, gerando trabalho coletivo e práticas solidárias que são fundamentais para a articulação dos produtores locais, principalmente os pequenos e médios. Apoiar este setor da economia é um compromisso político da Frente Popular. Por isso vamos criar o Gabinete de Estímulo às Cooperativas, um órgão especial ligado diretamente ao Gabinete do Governador para desenvolver políticas de incentivos, assistência e qualificação técnica das cooperativas, centralizando as políticas para o setor, do crédito à assistência técnica.

JB - Os representantes de entidades empresariais pregaram durante o primeiro turno e, certamente continuarão agora, o fim do governo do PT no Estado. Como o senhor avalia isso? Como se dá a sua relação com o empre-sariado?
Tarso Genro - Desde a prefeitura tenho um excelente relacionamento com o empre-sariado, fizemos muitas parcerias e tomamos juntos iniciativas importantes para a cidade. Na nossa campanha ao governo do Estado não vejo esta posição de rejeição ao PT ou à nossa candidatura entre os empresários em geral. Eu diria que tal pregação de um ou outro dirigente de entidade, em primeiro lugar, não reflete o sentimento que temos colhido em diversos encontros, inclusive, com inúmeras manifestações de apoio recebidos de sindicatos e associações de empreendedores por todo o estado, em centros industriais e econômicos importantes da Serra, Vale do Sinos e Metade Sul, por exemplo. Em segundo lugar, é um equívoco muito profundo destes dirigentes colocarem-se contra nós, que sempre defendemos a empresa nacional e gaúcha, e apoiar os responsáveis pelos juros altíssimos e pela política econômica que fechou milhares de empresas e gerou 12 milhões de desempregados no Brasil, com graves reflexos no Rio Grande do Sul.

JB - Qual o papel que os movimentos sociais terão no seu governo?
Tarso Genro - Os movimentos sociais estão na base da formação e do crescimento do PT e dos partidos que formam a Frente Popular (PT, PCB, PC do B e PMN), por isso não há como pensar em um governo nosso sem levar em conta a contribuição e a participação ativa destes movimentos, desde a concepção de programa até a futura execução de nossas propostas. Neste sentido, quero frisar que para a Frente Popular o projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos nossos compromissos com a inclusão social. O combate à exclusão social, além de ser um componente moral de nosso programa de governo é, também, uma estratégia de desenvolvimento, de ampliação do mercado interno e da produção. Num governo democrático e popular, as políticas sociais estarão assentadas em três grandes eixos: a universalização de acesso aos serviços sociais, a unicidade das políticas e o seu caráter público. Para nós, a política social é a forma pela qual o Estado concretiza e garante os direitos dos cidadãos, através da consecução integrada de um conjunto de políticas regulares e ordinárias em distintas áreas de intervenção no campo social. A universalização do acesso aos serviços sociais transcende o seu aspecto humanitário, sendo um dos elementos fundamentais para garantir a inclusão social, que deve passar, conco-mitantemente, pela oportu-nização do emprego e de formas de geração de renda.

JB - Como o senhor acredita que será o governo Lula?
Tarso Genro - Em primeiro lugar, vamos abrir um profundo diálogo com todos os setores da sociedade no sentido de realizar um processo de envolvimento e unidade em torno de um projeto nacional de reconstrução do país. Este projeto partirá de algumas premissas que são estruturantes e constam no nosso programa de governo nacional, a mudança do modelo econômico atual que é re-cessivo e excludente, para partir para uma outra lógica, fomentar o desenvolvimento incentivando a matriz produtiva nacional, desonerando a produção e criando condições de competitividade no mercado internacional, aliado a intensificação de um mercado interno cujo componente decisivo será a recuperação do poder aquisitivo do povo brasileiro. Aliás, em síntese, foi o que imple-mentamos aqui no estado com resultados significativos de crescimento levando em conta a média nacional. Será preciso, igualmente, um forte investimento na recuperação da nossa infra-estrutura tendo como base o social. Isto significa obras de saneamento básico, habitação e de aparelhos públicos urbanos que dignifiquem a vida nas grandes cidades do país e que, inclusive, sejam um dos elementos de combate à violência. Significa também, o planejamento e investimento da produção de energia no país, como foi feito no Estado e evitou o apagão, para que possa acompanhar o processo de crescimento econômico. Realizaremos uma ampla reforma agrária articulada com uma política agrícola potente, capaz de desenvolver a agricultura familiar como centro da produção diversificada de alimentos e aporte para o agronegócio continuar produzindo com qualidade e exportando. Isto trará paz no campo, manterá as famílias de produtores rurais em atividade no seu local de origem.

JB - Qual a avaliação que o senhor faz da imprensa gaúcha nesta eleição?
Tarso Genro - De um modo geral, a imprensa vem fazendo uma boa cobertura, com a preocupação de mostrar a campanha de cada candidato e apresentar ao público as suas propostas, inclusive com debates. Agora, não podemos negar que tivemos alguns problemas, como quando ficamos cinco dias seguidos sem aparecer no principal jornal do estado. A imprensa, no nosso entendimento, não pode ser avaliada apenas por seu desempenho durante o período restrito de uma campanha eleitoral, é preciso observar a sua cobertura política durante todo o tempo, como noticia ou deixa de noticiar o que o governo do estado faz, o destaque que dá para questões que às vezes são secundárias enquanto outras importantes são simplesmente ignoradas, bem como a postura dos seus comentaristas. Isto forma um conjunto de grande impacto sobre a opinião pública com reflexos óbvios na campanha eleitoral e na eleição.

"Nossa visão de mundo democrático não se esgota na eleição."

João de Barro - Qual a sua expectativa em relação ao segundo turno?
Tarso Genro - Nossa expectativa é vencer, sem dúvida. E para vencer nosso adversário nós vamos, a partir do maior tempo nos programas de televisão e rádio, mostrar o conjunto de realizações do nosso governo, que consideramos avanços significativos para o povo gaúcho. Ainda que não tenhamos realizado tudo o que desejávamos e o que seria suficientemente necessário para superar vários problemas do nosso estado. Igualmente, apresentaremos nossas propostas para o futuro do Rio Grande que permitirão ao nosso segundo governo fazer mais e melhor para os cidadãos rio-grandenses. Por outro lado, queremos que o eleitor e a eleitora compreendam estas propostas dentro de um projeto nacional de reconstrução e mudança do país, com a vitória do companheiro Lula para a presidência da República. Um projeto nacional que as nossas experiências administrativas em nossas prefeituras e no governo do Estado, ao lado da participação da população que constantemente as aperfeiçoa e qualifica, são protagonistas deste projeto. Ou seja, o povo gaúcho foi importantíssimo para a construção deste projeto que transformará o Brasil. Nada mais natural, neste contexto, a compreensão de que a continuidade da aplicação deste projeto no Rio Grande seja absolutamente benéfico para o estado e para o nosso povo.
Esta eleição nos proporcionará um profundo debate sobre as diferenças de projeto, entre o nosso e o que foi aplicado em nível nacional a partir do governo FHC, do qual o nosso adversário foi líder na Câmara dos Deputados e responsável por sua política, e o do governo anterior dirigido pelo seu partido, o PMDB. Consideramos que esta comparação permitirá que os eleitores optem por aquele que nos levou ao crescimento econômico com justiça social e democracia.

JB - O que o povo gaúcho pode esperar do governo Tarso Genro? Quais serão as prioridades do seu governo?
Tarso Genro - A síntese do nosso programa de governo é desenvolvimento com democracia e inclusão social. Para nós da Frente Popular, o desenvolvimento envolve mais do que a simples perspectiva de aumento da produção. Contempla, também, a redistribuição de renda, sustentabilidade ambi-ental e inclusão solidária. Por isso ganha importância em nossa estratégia de governo o fortalecimento da matriz produtiva gaúcha, através de investimentos específicos para estimular os nossos produtores industriais e agrícolas e os nossos empreendedores do setor de serviços. A criação de um mercado interno de massas é um elemento central da nossa estratégia de desenvolvimento, pois ao aumentar o poder de compra da classe trabalhadora estaremos gerando mercado para expandir a produção, estimulando o crescimento econômico e a geração de empregos.
Nosso projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos nossos compromissos sociais. Além de aprimorar e qualificar os serviços essenciais prestados pelo Estado, que manterá seus compromissos com o atendimento integral aos cidadãos através de políticas públicas de educação, saúde, habitação e segurança, o Estado deverá dar especial atenção às políticas de combate à pobreza. Programas do atual governo de atendimento às populações mais desamparadas, em situação de risco, como o programa de renda mínima (Família Cidadã) serão mantidos e qualificados. Estes aspectos, em nosso programa de governo, se combinam com um sistema democrático de participação popular, pelo qual a população exerce a sua cidadania e pode intervir nos rumos da sociedade.

JB - Qual a sua proposta para continuar a desenvolver o Estado?
Tarso Genro - Isto já foi parcialmente respondido na questão anterior, mas quero acrescentar que são destaques entre nossas propostas a criação do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico, unindo Estado e forças produtivas para constituir uma política de indução e fomento da economia gaúcha; do Gabinete de Estímulo ao Cooperativismo, ligado diretamente ao governador; o Programa Começar de Novo, visando gerar emprego para quem tem mais de 40 anos; o mutirão para superar o analfabetismo; a criação da Secretaria da Segurança Pública, separada da Secretaria da Justiça; a implantação da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e a renegociação da dívida do estado, que deverá ser facilitada com a eleição de Lula para presidente da República.

JB - Como fazer para diminuir as desigualdades regionais no RS?
Tarso Genro - A nossa proposta de desenvolvimento busca o crescimento da base produtiva já existente em cada região, baseado nos seguintes pressupostos: uma forte proteção, incentivo financeiro, tecnológico, observar a vocação econômico-social da região e instituir e fortalecer as cadeias agroindustriais. Foram criadas 133 mil empresas aqui no Estado nos últimos três anos e meio, o que é altamente positivo, e nossa política tributária tem que favorecer a emergência destas empresas nos locais onde o trabalho se realiza. Ou seja, nós temos que prestigiar o trabalho dos gaúchos e gaúchas de baixo para cima, o agricultor, o empresário local das regiões. Nós temos uma visão divergente de quem diz que a matriz produtiva do Estado é velha, que não serve mais e precisa ser mudada, daí que veio a idéia do Britto, com o apoio do Rigotto, de dar 500 milhões de dólares para a Ford. Nós não achamos que ela é velha, nós achamos que a nossa matriz produtiva é potente, que ela responde com rapidez e está bem distribuída no território gaúcho. Os fatos recentes comprovaram o diagnóstico de que nossa economia possui capacidade de resposta e de crescimento rápido. Afirmávamos que com uma política de fomento econômico - que passamos a implementar no governo do Estado - e com o fim da política cambial artificial era possível reverter a crise vivida de 1995 a 1998. A partir de 1999 isso aconteceu, o PIB do Rio Grande do Sul cresceu acima da média nacional, no ano 2000 tivemos o maior crescimento industrial do país, em 2001, tivemos a nossa maior safra de grãos da história - 20 milhões de toneladas - e conquistamos a segunda posição no ranking dos estados exportadores. No nosso segundo governo vamos incrementar ainda mais a economia gaúcha, alcançar patamares superiores de desenvolvimento e com isto gerar os empregos que precisamos.

João de Barro - Em entrevista ao João de Barro em julho, o senhor disse que quer fazer um Estado ainda mais ousado. Em que sentido é preciso ousar mais?
Tarso Genro - A partir do que foi assentado pelo nosso primeiro governo, com o companheiro Olívio Dutra, será possível partirmos para patamares ainda maiores de investimentos, políticas sociais e crescimento econômico dos que já foram alcançados. O estado, que já era uma referência para o mundo com a prefeitura, se consolida como um exemplo universal de democracia participativa e inclusão social. A partir deste protagonismo, desta visibilidade que o Rio Grande do Sul está adquirindo conosco no governo, o estado pode também passar a se beneficiar disto na captação de novos financiamentos, projetos e programas internacionais de nosso interesse.

João de Barro - Em artigo publicado na FSP em 4 de outubro, o sociólogo Boaventura Santos diz que uma vitória sua no RS é também uma vitória do mundo democrático. Qual a sua avaliação sobre essa declaração?
Tarso Genro - Creio que ele se referiu ao nosso modo de governar e aos nossos princípios, do PT, com relação a democracia e participação popular, que tem sido a nossa marca desde a prefeitura de Porto Alegre e no governo do estado. Na nossa concepção, os governantes não são seres com poderes absolutos e a vontade do povo não se extingue no instante seguinte ao seu voto. Conosco, o cidadão vota e depois tem todas as possibilidades de interferir e decidir os rumos da administração do município ou do Estado, através do Orçamento Participativo e vários outros mecanismos de intervenção dos cidadãos e cidadãs na vida pública, como os conselhos, os congressos e conferências de setores econômicos e segmentos sociais. Além disso, democracia para nós é também todos terem garantidos os seus direitos sociais básicos como educação, saúde, habitação, saneamento e serviços públicos eficientes. Nossa visão de mundo democrático não se esgota na eleição, apenas começa nela.

João de Barro - A participação popular é marca das administrações da Frente Popular. É isso que tanto os seus adversários temem: terem de ouvir as prioridades da população?
Tarso Genro - A tradição política do Brasil é profundamente autoritária. Nela o povo não tem vez, o voto é o máximo que a elite dominante concede à população em termos de democracia, mesmo assim com longas interrupções de regimes de exceção. Uma democracia capenga, que começa e termina na urna. Os governantes têm por costume se encastelar no poder com seus círculos mais íntimos e criam uma carapaça que os isola totalmente da vontade e das demandas mais urgentes do povo. Uma elite se preserva no comando da nação, dos estados, dos currais políticos, há séculos e governa apenas para um círculo restrito de interesses, com fisiologismo, corrupção e clientelismo. Quando se derrubam estas barreiras, quando se destrói a carapaça de proteção desse esquema todo, bate o pavor nos políticos que se acostumaram a governar só para si mesmos e seus amigos. Como trocar casa, comida, saúde, educação, por voto se agora as pessoas podem ter tudo isto sem pedir favor ao senhor deputado, ao senhor vereador? A democracia participativa é um golpe muito profundo numa forma de fazer política tão antiga que estava cristalizada e é lógico que isto gere incompre-ensões e reações muito fortes. Cabe a nós e à população não recuarmos e defendermos essa nova forma de fazer política, com participação e transparência.

João de Barro - Parte do eleitorado gaúcho ainda não se deu conta de que o projeto neoliberal é sustentado no RS por partidos como o PMDB?
Tarso Genro - É que parte do eleitorado não conhece meu adversário neste segundo turno, sabe vagamente que ele é deputado federal, mas ainda não fez a associação dele com o seu partido, PMDB, e do PMDB com os governos de FHC e de Britto. Uma das nossas funções neste segundo turno, em nossos programas, debates e materiais, é esclarecer a população sobre as razões da crise que vivemos, a partir da implantação do modelo neoliberal, com a participação ativa do PMDB e com Germano Rigotto como líder de FHC nos momentos mais decisivos de criação deste modelo, como as privatizações do petróleo, das telecomunicações e energia, as reformas administrativa e da previdência.

JB - Em seu projeto está previsto o Gabinete das Cooperativas. O que isso significa?
Tarso Genro - O Rio Grande do Sul conta com um sistema de cooperativas que têm grande importância econômica e social para o Estado. Além de garantir eficiência, a coopera-tivização introduz uma lógica específica nas relações econômicas, gerando trabalho coletivo e práticas solidárias que são fundamentais para a articulação dos produtores locais, principalmente os pequenos e médios. Apoiar este setor da economia é um compromisso político da Frente Popular. Por isso vamos criar o Gabinete de Estímulo às Cooperativas, um órgão especial ligado diretamente ao Gabinete do Governador para desenvolver políticas de incentivos, assistência e qualificação técnica das cooperativas, centralizando as políticas para o setor, do crédito à assistência técnica.

JB - Os representantes de entidades empresariais pregaram durante o primeiro turno e, certamente continuarão agora, o fim do governo do PT no Estado. Como o senhor avalia isso? Como se dá a sua relação com o empre-sariado?
Tarso Genro - Desde a prefeitura tenho um excelente relacionamento com o empre-sariado, fizemos muitas parcerias e tomamos juntos iniciativas importantes para a cidade. Na nossa campanha ao governo do Estado não vejo esta posição de rejeição ao PT ou à nossa candidatura entre os empresários em geral. Eu diria que tal pregação de um ou outro dirigente de entidade, em primeiro lugar, não reflete o sentimento que temos colhido em diversos encontros, inclusive, com inúmeras manifestações de apoio recebidos de sindicatos e associações de empreendedores por todo o estado, em centros industriais e econômicos importantes da Serra, Vale do Sinos e Metade Sul, por exemplo. Em segundo lugar, é um equívoco muito profundo destes dirigentes colocarem-se contra nós, que sempre defendemos a empresa nacional e gaúcha, e apoiar os responsáveis pelos juros altíssimos e pela política econômica que fechou milhares de empresas e gerou 12 milhões de desempregados no Brasil, com graves reflexos no Rio Grande do Sul.

JB - Qual o papel que os movimentos sociais terão no seu governo?
Tarso Genro - Os movimentos sociais estão na base da formação e do crescimento do PT e dos partidos que formam a Frente Popular (PT, PCB, PC do B e PMN), por isso não há como pensar em um governo nosso sem levar em conta a contribuição e a participação ativa destes movimentos, desde a concepção de programa até a futura execução de nossas propostas. Neste sentido, quero frisar que para a Frente Popular o projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos nossos compromissos com a inclusão social. O combate à exclusão social, além de ser um componente moral de nosso programa de governo é, também, uma estratégia de desenvolvimento, de ampliação do mercado interno e da produção. Num governo democrático e popular, as políticas sociais estarão assentadas em três grandes eixos: a universalização de acesso aos serviços sociais, a unicidade das políticas e o seu caráter público. Para nós, a política social é a forma pela qual o Estado concretiza e garante os direitos dos cidadãos, através da consecução integrada de um conjunto de políticas regulares e ordinárias em distintas áreas de intervenção no campo social. A universalização do acesso aos serviços sociais transcende o seu aspecto humanitário, sendo um dos elementos fundamentais para garantir a inclusão social, que deve passar, conco-mitantemente, pela oportu-nização do emprego e de formas de geração de renda.

JB - Como o senhor acredita que será o governo Lula?
Tarso Genro - Em primeiro lugar, vamos abrir um profundo diálogo com todos os setores da sociedade no sentido de realizar um processo de envolvimento e unidade em torno de um projeto nacional de reconstrução do país. Este projeto partirá de algumas premissas que são estruturantes e constam no nosso programa de governo nacional, a mudança do modelo econômico atual que é re-cessivo e excludente, para partir para uma outra lógica, fomentar o desenvolvimento incentivando a matriz produtiva nacional, desonerando a produção e criando condições de competitividade no mercado internacional, aliado a intensificação de um mercado interno cujo componente decisivo será a recuperação do poder aquisitivo do povo brasileiro. Aliás, em síntese, foi o que imple-mentamos aqui no estado com resultados significativos de crescimento levando em conta a média nacional. Será preciso, igualmente, um forte investimento na recuperação da nossa infra-estrutura tendo como base o social. Isto significa obras de saneamento básico, habitação e de aparelhos públicos urbanos que dignifiquem a vida nas grandes cidades do país e que, inclusive, sejam um dos elementos de combate à violência. Significa também, o planejamento e investimento da produção de energia no país, como foi feito no Estado e evitou o apagão, para que possa acompanhar o processo de crescimento econômico. Realizaremos uma ampla reforma agrária articulada com uma política agrícola potente, capaz de desenvolver a agricultura familiar como centro da produção diversificada de alimentos e aporte para o agronegócio continuar produzindo com qualidade e exportando. Isto trará paz no campo, manterá as famílias de produtores rurais em atividade no seu local de origem.

JB - Qual a avaliação que o senhor faz da imprensa gaúcha nesta eleição?
Tarso Genro - De um modo geral, a imprensa vem fazendo uma boa cobertura, com a preocupação de mostrar a campanha de cada candidato e apresentar ao público as suas propostas, inclusive com debates. Agora, não podemos negar que tivemos alguns problemas, como quando ficamos cinco dias seguidos sem aparecer no principal jornal do estado. A imprensa, no nosso entendimento, não pode ser avaliada apenas por seu desempenho durante o período restrito de uma campanha eleitoral, é preciso observar a sua cobertura política durante todo o tempo, como noticia ou deixa de noticiar o que o governo do estado faz, o destaque que dá para questões que às vezes são secundárias enquanto outras importantes são simplesmente ignoradas, bem como a postura dos seus comentaristas. Isto forma um conjunto de grande impacto sobre a opinião pública com reflexos óbvios na campanha eleitoral e na eleição.

"O combate à exclusão social, além de ser um componente moral de nosso programa de governo é, também, uma estratégia de desenvolvimento, de ampliação do mercado interno e da produção."

Entrevista Carla Rossa