| A
vez de Tarso Genro
O candidadato da Frente Popular ao governo do Rio Grande do Sul, Tarso
Genro, fala sobre os seus compromissos para governar o estado se for eleito
governador no dia 27 de outubro.
João
de Barro - Qual a sua expectativa em relação ao segundo
turno?
Tarso Genro - Nossa expectativa é vencer, sem dúvida. E
para vencer nosso adversário nós vamos, a partir do maior
tempo nos programas de televisão e rádio, mostrar o conjunto
de realizações do nosso governo, que consideramos avanços
significativos para o povo gaúcho. Ainda que não tenhamos
realizado tudo o que desejávamos e o que seria suficientemente
necessário para superar vários problemas do nosso estado.
Igualmente, apresentaremos nossas propostas para o futuro do Rio Grande
que permitirão ao nosso segundo governo fazer mais e melhor para
os cidadãos rio-grandenses. Por outro lado, queremos que o eleitor
e a eleitora compreendam estas propostas dentro de um projeto nacional
de reconstrução e mudança do país, com a vitória
do companheiro Lula para a presidência da República. Um projeto
nacional que as nossas experiências administrativas em nossas prefeituras
e no governo do Estado, ao lado da participação da população
que constantemente as aperfeiçoa e qualifica, são protagonistas
deste projeto. Ou seja, o povo gaúcho foi importantíssimo
para a construção deste projeto que transformará
o Brasil. Nada mais natural, neste contexto, a compreensão de que
a continuidade da aplicação deste projeto no Rio Grande
seja absolutamente benéfico para o estado e para o nosso povo.
Esta eleição nos proporcionará um profundo debate
sobre as diferenças de projeto, entre o nosso e o que foi aplicado
em nível nacional a partir do governo FHC, do qual o nosso adversário
foi líder na Câmara dos Deputados e responsável por
sua política, e o do governo anterior dirigido pelo seu partido,
o PMDB. Consideramos que esta comparação permitirá
que os eleitores optem por aquele que nos levou ao crescimento econômico
com justiça social e democracia.
JB
- O que o povo gaúcho pode esperar do governo Tarso Genro? Quais
serão as prioridades do seu governo?
Tarso Genro - A síntese do nosso programa de governo é desenvolvimento
com democracia e inclusão social. Para nós da Frente Popular,
o desenvolvimento envolve mais do que a simples perspectiva de aumento
da produção. Contempla, também, a redistribuição
de renda, sustentabilidade ambi-ental e inclusão solidária.
Por isso ganha importância em nossa estratégia de governo
o fortalecimento da matriz produtiva gaúcha, através de
investimentos específicos para estimular os nossos produtores industriais
e agrícolas e os nossos empreendedores do setor de serviços.
A criação de um mercado interno de massas é um elemento
central da nossa estratégia de desenvolvimento, pois ao aumentar
o poder de compra da classe trabalhadora estaremos gerando mercado para
expandir a produção, estimulando o crescimento econômico
e a geração de empregos.
Nosso projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos
nossos compromissos sociais. Além de aprimorar e qualificar os
serviços essenciais prestados pelo Estado, que manterá seus
compromissos com o atendimento integral aos cidadãos através
de políticas públicas de educação, saúde,
habitação e segurança, o Estado deverá dar
especial atenção às políticas de combate à
pobreza. Programas do atual governo de atendimento às populações
mais desamparadas, em situação de risco, como o programa
de renda mínima (Família Cidadã) serão mantidos
e qualificados. Estes aspectos, em nosso programa de governo, se combinam
com um sistema democrático de participação popular,
pelo qual a população exerce a sua cidadania e pode intervir
nos rumos da sociedade.
JB
- Qual a sua proposta para continuar a desenvolver o Estado?
Tarso Genro - Isto já foi parcialmente respondido na questão
anterior, mas quero acrescentar que são destaques entre nossas
propostas a criação do Conselho Estadual de Desenvolvimento
Econômico, unindo Estado e forças produtivas para constituir
uma política de indução e fomento da economia gaúcha;
do Gabinete de Estímulo ao Cooperativismo, ligado diretamente ao
governador; o Programa Começar de Novo, visando gerar emprego para
quem tem mais de 40 anos; o mutirão para superar o analfabetismo;
a criação da Secretaria da Segurança Pública,
separada da Secretaria da Justiça; a implantação
da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e a renegociação
da dívida do estado, que deverá ser facilitada com a eleição
de Lula para presidente da República.
JB
- Como fazer para diminuir as desigualdades regionais no RS?
Tarso Genro - A nossa proposta de desenvolvimento busca o crescimento
da base produtiva já existente em cada região, baseado nos
seguintes pressupostos: uma forte proteção, incentivo financeiro,
tecnológico, observar a vocação econômico-social
da região e instituir e fortalecer as cadeias agroindustriais.
Foram criadas 133 mil empresas aqui no Estado nos últimos três
anos e meio, o que é altamente positivo, e nossa política
tributária tem que favorecer a emergência destas empresas
nos locais onde o trabalho se realiza. Ou seja, nós temos que prestigiar
o trabalho dos gaúchos e gaúchas de baixo para cima, o agricultor,
o empresário local das regiões. Nós temos uma visão
divergente de quem diz que a matriz produtiva do Estado é velha,
que não serve mais e precisa ser mudada, daí que veio a
idéia do Britto, com o apoio do Rigotto, de dar 500 milhões
de dólares para a Ford. Nós não achamos que ela é
velha, nós achamos que a nossa matriz produtiva é potente,
que ela responde com rapidez e está bem distribuída no território
gaúcho. Os fatos recentes comprovaram o diagnóstico de que
nossa economia possui capacidade de resposta e de crescimento rápido.
Afirmávamos que com uma política de fomento econômico
- que passamos a implementar no governo do Estado - e com o fim da política
cambial artificial era possível reverter a crise vivida de 1995
a 1998. A partir de 1999 isso aconteceu, o PIB do Rio Grande do Sul cresceu
acima da média nacional, no ano 2000 tivemos o maior crescimento
industrial do país, em 2001, tivemos a nossa maior safra de grãos
da história - 20 milhões de toneladas - e conquistamos a
segunda posição no ranking dos estados exportadores. No
nosso segundo governo vamos incrementar ainda mais a economia gaúcha,
alcançar patamares superiores de desenvolvimento e com isto gerar
os empregos que precisamos.
João
de Barro - Em entrevista ao João de Barro em julho, o senhor disse
que quer fazer um Estado ainda mais ousado. Em que sentido é preciso
ousar mais?
Tarso Genro - A partir do que foi assentado pelo nosso primeiro governo,
com o companheiro Olívio Dutra, será possível partirmos
para patamares ainda maiores de investimentos, políticas sociais
e crescimento econômico dos que já foram alcançados.
O estado, que já era uma referência para o mundo com a prefeitura,
se consolida como um exemplo universal de democracia participativa e inclusão
social. A partir deste protagonismo, desta visibilidade que o Rio Grande
do Sul está adquirindo conosco no governo, o estado pode também
passar a se beneficiar disto na captação de novos financiamentos,
projetos e programas internacionais de nosso interesse.
João
de Barro - Em artigo publicado na FSP em 4 de outubro, o sociólogo
Boaventura Santos diz que uma vitória sua no RS é também
uma vitória do mundo democrático. Qual a sua avaliação
sobre essa declaração?
Tarso Genro - Creio que ele se referiu ao nosso modo de governar e aos
nossos princípios, do PT, com relação a democracia
e participação popular, que tem sido a nossa marca desde
a prefeitura de Porto Alegre e no governo do estado. Na nossa concepção,
os governantes não são seres com poderes absolutos e a vontade
do povo não se extingue no instante seguinte ao seu voto. Conosco,
o cidadão vota e depois tem todas as possibilidades de interferir
e decidir os rumos da administração do município
ou do Estado, através do Orçamento Participativo e vários
outros mecanismos de intervenção dos cidadãos e cidadãs
na vida pública, como os conselhos, os congressos e conferências
de setores econômicos e segmentos sociais. Além disso, democracia
para nós é também todos terem garantidos os seus
direitos sociais básicos como educação, saúde,
habitação, saneamento e serviços públicos
eficientes. Nossa visão de mundo democrático não
se esgota na eleição, apenas começa nela.
João
de Barro - A participação popular é marca das administrações
da Frente Popular. É isso que tanto os seus adversários
temem: terem de ouvir as prioridades da população?
Tarso Genro - A tradição política do Brasil é
profundamente autoritária. Nela o povo não tem vez, o voto
é o máximo que a elite dominante concede à população
em termos de democracia, mesmo assim com longas interrupções
de regimes de exceção. Uma democracia capenga, que começa
e termina na urna. Os governantes têm por costume se encastelar
no poder com seus círculos mais íntimos e criam uma carapaça
que os isola totalmente da vontade e das demandas mais urgentes do povo.
Uma elite se preserva no comando da nação, dos estados,
dos currais políticos, há séculos e governa apenas
para um círculo restrito de interesses, com fisiologismo, corrupção
e clientelismo. Quando se derrubam estas barreiras, quando se destrói
a carapaça de proteção desse esquema todo, bate o
pavor nos políticos que se acostumaram a governar só para
si mesmos e seus amigos. Como trocar casa, comida, saúde, educação,
por voto se agora as pessoas podem ter tudo isto sem pedir favor ao senhor
deputado, ao senhor vereador? A democracia participativa é um golpe
muito profundo numa forma de fazer política tão antiga que
estava cristalizada e é lógico que isto gere incompre-ensões
e reações muito fortes. Cabe a nós e à população
não recuarmos e defendermos essa nova forma de fazer política,
com participação e transparência.
João
de Barro - Parte do eleitorado gaúcho ainda não se deu conta
de que o projeto neoliberal é sustentado no RS por partidos como
o PMDB?
Tarso Genro - É que parte do eleitorado não conhece meu
adversário neste segundo turno, sabe vagamente que ele é
deputado federal, mas ainda não fez a associação
dele com o seu partido, PMDB, e do PMDB com os governos de FHC e de Britto.
Uma das nossas funções neste segundo turno, em nossos programas,
debates e materiais, é esclarecer a população sobre
as razões da crise que vivemos, a partir da implantação
do modelo neoliberal, com a participação ativa do PMDB e
com Germano Rigotto como líder de FHC nos momentos mais decisivos
de criação deste modelo, como as privatizações
do petróleo, das telecomunicações e energia, as reformas
administrativa e da previdência.
JB
- Em seu projeto está previsto o Gabinete das Cooperativas. O que
isso significa?
Tarso Genro - O Rio Grande do Sul conta com um sistema de cooperativas
que têm grande importância econômica e social para o
Estado. Além de garantir eficiência, a coopera-tivização
introduz uma lógica específica nas relações
econômicas, gerando trabalho coletivo e práticas solidárias
que são fundamentais para a articulação dos produtores
locais, principalmente os pequenos e médios. Apoiar este setor
da economia é um compromisso político da Frente Popular.
Por isso vamos criar o Gabinete de Estímulo às Cooperativas,
um órgão especial ligado diretamente ao Gabinete do Governador
para desenvolver políticas de incentivos, assistência e qualificação
técnica das cooperativas, centralizando as políticas para
o setor, do crédito à assistência técnica.
JB
- Os representantes de entidades empresariais pregaram durante o primeiro
turno e, certamente continuarão agora, o fim do governo do PT no
Estado. Como o senhor avalia isso? Como se dá a sua relação
com o empre-sariado?
Tarso Genro - Desde a prefeitura tenho um excelente relacionamento com
o empre-sariado, fizemos muitas parcerias e tomamos juntos iniciativas
importantes para a cidade. Na nossa campanha ao governo do Estado não
vejo esta posição de rejeição ao PT ou à
nossa candidatura entre os empresários em geral. Eu diria que tal
pregação de um ou outro dirigente de entidade, em primeiro
lugar, não reflete o sentimento que temos colhido em diversos encontros,
inclusive, com inúmeras manifestações de apoio recebidos
de sindicatos e associações de empreendedores por todo o
estado, em centros industriais e econômicos importantes da Serra,
Vale do Sinos e Metade Sul, por exemplo. Em segundo lugar, é um
equívoco muito profundo destes dirigentes colocarem-se contra nós,
que sempre defendemos a empresa nacional e gaúcha, e apoiar os
responsáveis pelos juros altíssimos e pela política
econômica que fechou milhares de empresas e gerou 12 milhões
de desempregados no Brasil, com graves reflexos no Rio Grande do Sul.
JB
- Qual o papel que os movimentos sociais terão no seu governo?
Tarso Genro - Os movimentos sociais estão na base da formação
e do crescimento do PT e dos partidos que formam a Frente Popular (PT,
PCB, PC do B e PMN), por isso não há como pensar em um governo
nosso sem levar em conta a contribuição e a participação
ativa destes movimentos, desde a concepção de programa até
a futura execução de nossas propostas. Neste sentido, quero
frisar que para a Frente Popular o projeto de desenvolvimento está
intimamente relacionado aos nossos compromissos com a inclusão
social. O combate à exclusão social, além de ser
um componente moral de nosso programa de governo é, também,
uma estratégia de desenvolvimento, de ampliação do
mercado interno e da produção. Num governo democrático
e popular, as políticas sociais estarão assentadas em três
grandes eixos: a universalização de acesso aos serviços
sociais, a unicidade das políticas e o seu caráter público.
Para nós, a política social é a forma pela qual o
Estado concretiza e garante os direitos dos cidadãos, através
da consecução integrada de um conjunto de políticas
regulares e ordinárias em distintas áreas de intervenção
no campo social. A universalização do acesso aos serviços
sociais transcende o seu aspecto humanitário, sendo um dos elementos
fundamentais para garantir a inclusão social, que deve passar,
conco-mitantemente, pela oportu-nização do emprego e de
formas de geração de renda.
JB
- Como o senhor acredita que será o governo Lula?
Tarso Genro - Em primeiro lugar, vamos abrir um profundo diálogo
com todos os setores da sociedade no sentido de realizar um processo de
envolvimento e unidade em torno de um projeto nacional de reconstrução
do país. Este projeto partirá de algumas premissas que são
estruturantes e constam no nosso programa de governo nacional, a mudança
do modelo econômico atual que é re-cessivo e excludente,
para partir para uma outra lógica, fomentar o desenvolvimento incentivando
a matriz produtiva nacional, desonerando a produção e criando
condições de competitividade no mercado internacional, aliado
a intensificação de um mercado interno cujo componente decisivo
será a recuperação do poder aquisitivo do povo brasileiro.
Aliás, em síntese, foi o que imple-mentamos aqui no estado
com resultados significativos de crescimento levando em conta a média
nacional. Será preciso, igualmente, um forte investimento na recuperação
da nossa infra-estrutura tendo como base o social. Isto significa obras
de saneamento básico, habitação e de aparelhos públicos
urbanos que dignifiquem a vida nas grandes cidades do país e que,
inclusive, sejam um dos elementos de combate à violência.
Significa também, o planejamento e investimento da produção
de energia no país, como foi feito no Estado e evitou o apagão,
para que possa acompanhar o processo de crescimento econômico. Realizaremos
uma ampla reforma agrária articulada com uma política agrícola
potente, capaz de desenvolver a agricultura familiar como centro da produção
diversificada de alimentos e aporte para o agronegócio continuar
produzindo com qualidade e exportando. Isto trará paz no campo,
manterá as famílias de produtores rurais em atividade no
seu local de origem.
JB
- Qual a avaliação que o senhor faz da imprensa gaúcha
nesta eleição?
Tarso Genro - De um modo geral, a imprensa vem fazendo uma boa cobertura,
com a preocupação de mostrar a campanha de cada candidato
e apresentar ao público as suas propostas, inclusive com debates.
Agora, não podemos negar que tivemos alguns problemas, como quando
ficamos cinco dias seguidos sem aparecer no principal jornal do estado.
A imprensa, no nosso entendimento, não pode ser avaliada apenas
por seu desempenho durante o período restrito de uma campanha eleitoral,
é preciso observar a sua cobertura política durante todo
o tempo, como noticia ou deixa de noticiar o que o governo do estado faz,
o destaque que dá para questões que às vezes são
secundárias enquanto outras importantes são simplesmente
ignoradas, bem como a postura dos seus comentaristas. Isto forma um conjunto
de grande impacto sobre a opinião pública com reflexos óbvios
na campanha eleitoral e na eleição.
"Nossa
visão de mundo democrático não se esgota na eleição."
João
de Barro - Qual a sua expectativa em relação ao segundo
turno?
Tarso Genro - Nossa expectativa é vencer, sem dúvida. E
para vencer nosso adversário nós vamos, a partir do maior
tempo nos programas de televisão e rádio, mostrar o conjunto
de realizações do nosso governo, que consideramos avanços
significativos para o povo gaúcho. Ainda que não tenhamos
realizado tudo o que desejávamos e o que seria suficientemente
necessário para superar vários problemas do nosso estado.
Igualmente, apresentaremos nossas propostas para o futuro do Rio Grande
que permitirão ao nosso segundo governo fazer mais e melhor para
os cidadãos rio-grandenses. Por outro lado, queremos que o eleitor
e a eleitora compreendam estas propostas dentro de um projeto nacional
de reconstrução e mudança do país, com a vitória
do companheiro Lula para a presidência da República. Um projeto
nacional que as nossas experiências administrativas em nossas prefeituras
e no governo do Estado, ao lado da participação da população
que constantemente as aperfeiçoa e qualifica, são protagonistas
deste projeto. Ou seja, o povo gaúcho foi importantíssimo
para a construção deste projeto que transformará
o Brasil. Nada mais natural, neste contexto, a compreensão de que
a continuidade da aplicação deste projeto no Rio Grande
seja absolutamente benéfico para o estado e para o nosso povo.
Esta eleição nos proporcionará um profundo debate
sobre as diferenças de projeto, entre o nosso e o que foi aplicado
em nível nacional a partir do governo FHC, do qual o nosso adversário
foi líder na Câmara dos Deputados e responsável por
sua política, e o do governo anterior dirigido pelo seu partido,
o PMDB. Consideramos que esta comparação permitirá
que os eleitores optem por aquele que nos levou ao crescimento econômico
com justiça social e democracia.
JB
- O que o povo gaúcho pode esperar do governo Tarso Genro? Quais
serão as prioridades do seu governo?
Tarso Genro - A síntese do nosso programa de governo é desenvolvimento
com democracia e inclusão social. Para nós da Frente Popular,
o desenvolvimento envolve mais do que a simples perspectiva de aumento
da produção. Contempla, também, a redistribuição
de renda, sustentabilidade ambi-ental e inclusão solidária.
Por isso ganha importância em nossa estratégia de governo
o fortalecimento da matriz produtiva gaúcha, através de
investimentos específicos para estimular os nossos produtores industriais
e agrícolas e os nossos empreendedores do setor de serviços.
A criação de um mercado interno de massas é um elemento
central da nossa estratégia de desenvolvimento, pois ao aumentar
o poder de compra da classe trabalhadora estaremos gerando mercado para
expandir a produção, estimulando o crescimento econômico
e a geração de empregos.
Nosso projeto de desenvolvimento está intimamente relacionado aos
nossos compromissos sociais. Além de aprimorar e qualificar os
serviços essenciais prestados pelo Estado, que manterá seus
compromissos com o atendimento integral aos cidadãos através
de políticas públicas de educação, saúde,
habitação e segurança, o Estado deverá dar
especial atenção às políticas de combate à
pobreza. Programas do atual governo de atendimento às populações
mais desamparadas, em situação de risco, como o programa
de renda mínima (Família Cidadã) serão mantidos
e qualificados. Estes aspectos, em nosso programa de governo, se combinam
com um sistema democrático de participação popular,
pelo qual a população exerce a sua cidadania e pode intervir
nos rumos da sociedade.
JB
- Qual a sua proposta para continuar a desenvolver o Estado?
Tarso Genro - Isto já foi parcialmente respondido na questão
anterior, mas quero acrescentar que são destaques entre nossas
propostas a criação do Conselho Estadual de Desenvolvimento
Econômico, unindo Estado e forças produtivas para constituir
uma política de indução e fomento da economia gaúcha;
do Gabinete de Estímulo ao Cooperativismo, ligado diretamente ao
governador; o Programa Começar de Novo, visando gerar emprego para
quem tem mais de 40 anos; o mutirão para superar o analfabetismo;
a criação da Secretaria da Segurança Pública,
separada da Secretaria da Justiça; a implantação
da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e a renegociação
da dívida do estado, que deverá ser facilitada com a eleição
de Lula para presidente da República.
JB
- Como fazer para diminuir as desigualdades regionais no RS?
Tarso Genro - A nossa proposta de desenvolvimento busca o crescimento
da base produtiva já existente em cada região, baseado nos
seguintes pressupostos: uma forte proteção, incentivo financeiro,
tecnológico, observar a vocação econômico-social
da região e instituir e fortalecer as cadeias agroindustriais.
Foram criadas 133 mil empresas aqui no Estado nos últimos três
anos e meio, o que é altamente positivo, e nossa política
tributária tem que favorecer a emergência destas empresas
nos locais onde o trabalho se realiza. Ou seja, nós temos que prestigiar
o trabalho dos gaúchos e gaúchas de baixo para cima, o agricultor,
o empresário local das regiões. Nós temos uma visão
divergente de quem diz que a matriz produtiva do Estado é velha,
que não serve mais e precisa ser mudada, daí que veio a
idéia do Britto, com o apoio do Rigotto, de dar 500 milhões
de dólares para a Ford. Nós não achamos que ela é
velha, nós achamos que a nossa matriz produtiva é potente,
que ela responde com rapidez e está bem distribuída no território
gaúcho. Os fatos recentes comprovaram o diagnóstico de que
nossa economia possui capacidade de resposta e de crescimento rápido.
Afirmávamos que com uma política de fomento econômico
- que passamos a implementar no governo do Estado - e com o fim da política
cambial artificial era possível reverter a crise vivida de 1995
a 1998. A partir de 1999 isso aconteceu, o PIB do Rio Grande do Sul cresceu
acima da média nacional, no ano 2000 tivemos o maior crescimento
industrial do país, em 2001, tivemos a nossa maior safra de grãos
da história - 20 milhões de toneladas - e conquistamos a
segunda posição no ranking dos estados exportadores. No
nosso segundo governo vamos incrementar ainda mais a economia gaúcha,
alcançar patamares superiores de desenvolvimento e com isto gerar
os empregos que precisamos.
João
de Barro - Em entrevista ao João de Barro em julho, o senhor disse
que quer fazer um Estado ainda mais ousado. Em que sentido é preciso
ousar mais?
Tarso Genro - A partir do que foi assentado pelo nosso primeiro governo,
com o companheiro Olívio Dutra, será possível partirmos
para patamares ainda maiores de investimentos, políticas sociais
e crescimento econômico dos que já foram alcançados.
O estado, que já era uma referência para o mundo com a prefeitura,
se consolida como um exemplo universal de democracia participativa e inclusão
social. A partir deste protagonismo, desta visibilidade que o Rio Grande
do Sul está adquirindo conosco no governo, o estado pode também
passar a se beneficiar disto na captação de novos financiamentos,
projetos e programas internacionais de nosso interesse.
João
de Barro - Em artigo publicado na FSP em 4 de outubro, o sociólogo
Boaventura Santos diz que uma vitória sua no RS é também
uma vitória do mundo democrático. Qual a sua avaliação
sobre essa declaração?
Tarso Genro - Creio que ele se referiu ao nosso modo de governar e aos
nossos princípios, do PT, com relação a democracia
e participação popular, que tem sido a nossa marca desde
a prefeitura de Porto Alegre e no governo do estado. Na nossa concepção,
os governantes não são seres com poderes absolutos e a vontade
do povo não se extingue no instante seguinte ao seu voto. Conosco,
o cidadão vota e depois tem todas as possibilidades de interferir
e decidir os rumos da administração do município
ou do Estado, através do Orçamento Participativo e vários
outros mecanismos de intervenção dos cidadãos e cidadãs
na vida pública, como os conselhos, os congressos e conferências
de setores econômicos e segmentos sociais. Além disso, democracia
para nós é também todos terem garantidos os seus
direitos sociais básicos como educação, saúde,
habitação, saneamento e serviços públicos
eficientes. Nossa visão de mundo democrático não
se esgota na eleição, apenas começa nela.
João
de Barro - A participação popular é marca das administrações
da Frente Popular. É isso que tanto os seus adversários
temem: terem de ouvir as prioridades da população?
Tarso Genro - A tradição política do Brasil é
profundamente autoritária. Nela o povo não tem vez, o voto
é o máximo que a elite dominante concede à população
em termos de democracia, mesmo assim com longas interrupções
de regimes de exceção. Uma democracia capenga, que começa
e termina na urna. Os governantes têm por costume se encastelar
no poder com seus círculos mais íntimos e criam uma carapaça
que os isola totalmente da vontade e das demandas mais urgentes do povo.
Uma elite se preserva no comando da nação, dos estados,
dos currais políticos, há séculos e governa apenas
para um círculo restrito de interesses, com fisiologismo, corrupção
e clientelismo. Quando se derrubam estas barreiras, quando se destrói
a carapaça de proteção desse esquema todo, bate o
pavor nos políticos que se acostumaram a governar só para
si mesmos e seus amigos. Como trocar casa, comida, saúde, educação,
por voto se agora as pessoas podem ter tudo isto sem pedir favor ao senhor
deputado, ao senhor vereador? A democracia participativa é um golpe
muito profundo numa forma de fazer política tão antiga que
estava cristalizada e é lógico que isto gere incompre-ensões
e reações muito fortes. Cabe a nós e à população
não recuarmos e defendermos essa nova forma de fazer política,
com participação e transparência.
João
de Barro - Parte do eleitorado gaúcho ainda não se deu conta
de que o projeto neoliberal é sustentado no RS por partidos como
o PMDB?
Tarso Genro - É que parte do eleitorado não conhece meu
adversário neste segundo turno, sabe vagamente que ele é
deputado federal, mas ainda não fez a associação
dele com o seu partido, PMDB, e do PMDB com os governos de FHC e de Britto.
Uma das nossas funções neste segundo turno, em nossos programas,
debates e materiais, é esclarecer a população sobre
as razões da crise que vivemos, a partir da implantação
do modelo neoliberal, com a participação ativa do PMDB e
com Germano Rigotto como líder de FHC nos momentos mais decisivos
de criação deste modelo, como as privatizações
do petróleo, das telecomunicações e energia, as reformas
administrativa e da previdência.
JB
- Em seu projeto está previsto o Gabinete das Cooperativas. O que
isso significa?
Tarso Genro - O Rio Grande do Sul conta com um sistema de cooperativas
que têm grande importância econômica e social para o
Estado. Além de garantir eficiência, a coopera-tivização
introduz uma lógica específica nas relações
econômicas, gerando trabalho coletivo e práticas solidárias
que são fundamentais para a articulação dos produtores
locais, principalmente os pequenos e médios. Apoiar este setor
da economia é um compromisso político da Frente Popular.
Por isso vamos criar o Gabinete de Estímulo às Cooperativas,
um órgão especial ligado diretamente ao Gabinete do Governador
para desenvolver políticas de incentivos, assistência e qualificação
técnica das cooperativas, centralizando as políticas para
o setor, do crédito à assistência técnica.
JB
- Os representantes de entidades empresariais pregaram durante o primeiro
turno e, certamente continuarão agora, o fim do governo do PT no
Estado. Como o senhor avalia isso? Como se dá a sua relação
com o empre-sariado?
Tarso Genro - Desde a prefeitura tenho um excelente relacionamento com
o empre-sariado, fizemos muitas parcerias e tomamos juntos iniciativas
importantes para a cidade. Na nossa campanha ao governo do Estado não
vejo esta posição de rejeição ao PT ou à
nossa candidatura entre os empresários em geral. Eu diria que tal
pregação de um ou outro dirigente de entidade, em primeiro
lugar, não reflete o sentimento que temos colhido em diversos encontros,
inclusive, com inúmeras manifestações de apoio recebidos
de sindicatos e associações de empreendedores por todo o
estado, em centros industriais e econômicos importantes da Serra,
Vale do Sinos e Metade Sul, por exemplo. Em segundo lugar, é um
equívoco muito profundo destes dirigentes colocarem-se contra nós,
que sempre defendemos a empresa nacional e gaúcha, e apoiar os
responsáveis pelos juros altíssimos e pela política
econômica que fechou milhares de empresas e gerou 12 milhões
de desempregados no Brasil, com graves reflexos no Rio Grande do Sul.
JB
- Qual o papel que os movimentos sociais terão no seu governo?
Tarso Genro - Os movimentos sociais estão na base da formação
e do crescimento do PT e dos partidos que formam a Frente Popular (PT,
PCB, PC do B e PMN), por isso não há como pensar em um governo
nosso sem levar em conta a contribuição e a participação
ativa destes movimentos, desde a concepção de programa até
a futura execução de nossas propostas. Neste sentido, quero
frisar que para a Frente Popular o projeto de desenvolvimento está
intimamente relacionado aos nossos compromissos com a inclusão
social. O combate à exclusão social, além de ser
um componente moral de nosso programa de governo é, também,
uma estratégia de desenvolvimento, de ampliação do
mercado interno e da produção. Num governo democrático
e popular, as políticas sociais estarão assentadas em três
grandes eixos: a universalização de acesso aos serviços
sociais, a unicidade das políticas e o seu caráter público.
Para nós, a política social é a forma pela qual o
Estado concretiza e garante os direitos dos cidadãos, através
da consecução integrada de um conjunto de políticas
regulares e ordinárias em distintas áreas de intervenção
no campo social. A universalização do acesso aos serviços
sociais transcende o seu aspecto humanitário, sendo um dos elementos
fundamentais para garantir a inclusão social, que deve passar,
conco-mitantemente, pela oportu-nização do emprego e de
formas de geração de renda.
JB
- Como o senhor acredita que será o governo Lula?
Tarso Genro - Em primeiro lugar, vamos abrir um profundo diálogo
com todos os setores da sociedade no sentido de realizar um processo de
envolvimento e unidade em torno de um projeto nacional de reconstrução
do país. Este projeto partirá de algumas premissas que são
estruturantes e constam no nosso programa de governo nacional, a mudança
do modelo econômico atual que é re-cessivo e excludente,
para partir para uma outra lógica, fomentar o desenvolvimento incentivando
a matriz produtiva nacional, desonerando a produção e criando
condições de competitividade no mercado internacional, aliado
a intensificação de um mercado interno cujo componente decisivo
será a recuperação do poder aquisitivo do povo brasileiro.
Aliás, em síntese, foi o que imple-mentamos aqui no estado
com resultados significativos de crescimento levando em conta a média
nacional. Será preciso, igualmente, um forte investimento na recuperação
da nossa infra-estrutura tendo como base o social. Isto significa obras
de saneamento básico, habitação e de aparelhos públicos
urbanos que dignifiquem a vida nas grandes cidades do país e que,
inclusive, sejam um dos elementos de combate à violência.
Significa também, o planejamento e investimento da produção
de energia no país, como foi feito no Estado e evitou o apagão,
para que possa acompanhar o processo de crescimento econômico. Realizaremos
uma ampla reforma agrária articulada com uma política agrícola
potente, capaz de desenvolver a agricultura familiar como centro da produção
diversificada de alimentos e aporte para o agronegócio continuar
produzindo com qualidade e exportando. Isto trará paz no campo,
manterá as famílias de produtores rurais em atividade no
seu local de origem.
JB
- Qual a avaliação que o senhor faz da imprensa gaúcha
nesta eleição?
Tarso Genro - De um modo geral, a imprensa vem fazendo uma boa cobertura,
com a preocupação de mostrar a campanha de cada candidato
e apresentar ao público as suas propostas, inclusive com debates.
Agora, não podemos negar que tivemos alguns problemas, como quando
ficamos cinco dias seguidos sem aparecer no principal jornal do estado.
A imprensa, no nosso entendimento, não pode ser avaliada apenas
por seu desempenho durante o período restrito de uma campanha eleitoral,
é preciso observar a sua cobertura política durante todo
o tempo, como noticia ou deixa de noticiar o que o governo do estado faz,
o destaque que dá para questões que às vezes são
secundárias enquanto outras importantes são simplesmente
ignoradas, bem como a postura dos seus comentaristas. Isto forma um conjunto
de grande impacto sobre a opinião pública com reflexos óbvios
na campanha eleitoral e na eleição.
"O
combate à exclusão social, além de ser um componente
moral de nosso programa de governo é, também, uma estratégia
de desenvolvimento, de ampliação do mercado interno e da
produção."
Entrevista
Carla Rossa
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