Jornal João de Barro - nº268 outubro/2002
hoje

Semelhança não é mera coincidência

Germano Rigotto representa a volta de uma política que exclui a sociedade das decisões públicas.
Sai Antônio Britto, entra Germano Rigotto. É dessa forma que a política conservadora e neoliberal será representada no segundo turno das eleições para governador do Rio Grande do Sul. Os nomes podem ser diferentes, mas as idéias são as mesmas. Por isso, antes de confirmar o seu voto no próximo dia 27 de outubro, procure lembrar do passado político do candidato do PMDB. Os fatos mostram que Rigotto e Britto sempre estiveram do mesmo lado.
Os até bem pouco tempo companheiros de partido têm muito mais em comum do que os "tês" dobrados nos seus nomes. Tanto Britto, quanto Rigotto, defendem a venda do patrimônio público e são contra os direitos trabalhistas. Além disso, ambos apóiam a demissão de funcionários através dos Planos de Demissões Voluntárias (PDV). Dessa forma, o adversário de Tarso Genro (PT) mostra que, se eleito, o desemprego e as restrições à aposentaria farão parte do cotidiano dos gaúchos.O próprio ex-governador confessou, logo após ser derrotado pelas urnas, que a sua campanha no primeiro turno foi uma jogada ensaiada com Rigotto. "O primeiro turno é igual a uma partida de futebol: uns marcam os gols e outros fazem as jogadas criativas", afirmou Britto em entrevista coletiva.
Ao longo da sua atuação como deputado federal, Rigotto sempre apoiou as propostas de FHC, sendo líder do governo no Congresso Nacional. O candidato ao governo gaúcho foi responsável pela sustentação do neoliberalismo, que causou o corte de recursos para as políticas sociais do país. Isso acabou aumentando a exclusão social e trouxe o maior índice de desemprego da história brasileira, tanto que Rigotto é conhecido na Câmara dos Deputados como o líder do "Governo do Desemprego".
Os prejuízos aos trabalhadores não param por aí. Rigotto votou a favor da Lei do Fator Previdenciário, aumentando a idade mínima para a aposentadoria de 60 para 65 para os homens, e de 55 para 60 anos para mulheres e reduzindo em até 50% os benefícios dos ativos. Durante a reforma da previdência, votou a favor da redução de 30% nos salários dos servidores que passaram para a inatividade.
Isso não é tudo. Você lembra do apagão? Pois Rigotto foi um dos responsáveis pela crise ao apoiar a privatização dos setores de energia elétrica, de telecomunicações. O peeme-debista também defendeu o interesse dos banqueiros e espe-culadores ao votar pela isenção da CPMF para a Bolsa de Valores. Os trabalhadores têm que pagar a contribuição, já os aliados do PMDB são beneficiados pela isenção.
Rigotto também lutou pelo fim da estabilidade dos servidores públicos. Uma reportagem no jornal Folha de São Paulo, de 16 de outubro de 1995, afirma "o líder do governo no Congresso, deputado Germano Rigotto (PMDB-RS), cobrou ontem mais empenho dos governadores na defesa da reforma administrativa. Na avaliação do Planalto, a proposta de acabar com a estabilidade dos servidores públicos interessa mais a estados e municípios, mas é o governo federal que arca sozinho com o ônus de defendê-la." E é o próprio Rigotto que defende: "os governadores deveriam procurar os meios de comunicação, que estão abertos, conscientizar suas bancadas, formar opinião, disse Rigotto".
O diretor de política sindical e formação da Federação dos Bancários do RS e funcionário do Banrisul, Carlos Augusto Rocha, acredita que um possível governo de Rigotto seria tão somente a continuação do governo de Britto. Durante seus quatro anos de mandato, entre 1994 e 98, o ex-governador aplicou a ideologia do seus partido, privatizando a CRT e desmembrando a CEEE em seis empresas, sendo três delas privatizadas. "O PMDB não mudou as suas idéias desde aquela época, apenas houve uma mudança no nome do candidato", diz. "A vitória de Rigotto não representará uma vitória pessoal, mas sim dessa ideologia partidária, baseada na venda das instituições públicas."
O Banrisul somente não foi privatizado e não está na lista de bancos estaduais a serem vendidos pela vontade política do governo da Frente Popular. Vale lembrar que a Assembléia Legislativa aprovou um projeto de emenda constitucional em junho deste ano, sancionado pelo governador Olívio Dutra, onde é garantido que o Banrisul e a Corsan só poderão ser privatizados depois da realização de um plebiscito junto à população gaúcha, que decidirá se as empresas devem ou não serem vendidas. Apesar disso, uma administração que pense de forma diferente pode desqualificar o banco e influenciar a decisão da população.
Na opinião da presidente do Centro dos Professores do RS (Cpergs), professora Jussara Vieira, o PMDB foi um grande aliado do governo FHC e, portanto, contribuiu para a aplicação de políticas neoliberais, indo contra os interesses dos servidores públicos. A professora destaca que nos dois últimos mandatos do partido no RS, nas gestões de Pedro Simon e Antônio Britto, a educação foi um setor que sofreu enormes prejuízos. "Os professores perderam conquistas históricas, como o fim dos dois e meio salários mínimos de base para o magistério", lamenta.
A possibilidade de Rigotto assumir o governo do Estado é vista com apreensão por Jussara. Segundo a professora, o RS precisa afirmar o modelo que se contrapõe ao neoliberalismo. "Temos uma grande responsabilidade no contexto internacional", explica. "É aqui que se realiza o Fórum Social Mundial, e é para cá que os olhos do mundo se voltam para pensar numa outra possibilidade de sociedade."
O presidente da CUT/RS, Quintino Severo, lembra que Rigotto nunca atuou em favor do serviço público. "Quem garante que um deputado que votou pelo fim da estabilidade dos servidores públicos, como fez Rigotto, não irá desenvolver essa política como governador?", questiona Quintino. Segundo o sindicalista, a retirada da estabilidade do servidor público, além de causar demissões em massa, significa vincular e reforçar uma política de apadrinhamento. Isto é, os cargos públicos seriam ocupados por pessoas que sejam apadrinhadas politicamente, seja pelo partido ou pelas próprias candidaturas. "Isso é um extremo retrocesso", condena.
O sindicalista afirma ainda que a mídia, durante o mandato de Olívio Dutra, fez um intenso trabalho preparando a desconstituição do atual governo. Assim, não foi possível que o governador apresentasse para a sociedade todas as suas realizações. "Foi colocado na cabeça das pessoas que o projeto que está em curso no RS não serve, pois evidentemente não apóia as elites e os grandes grupos econômicos", explica. Mesmo assim, Quintino acredita que possa haver uma grande virada no segundo turno, já que agora Rigotto deverá apresentar os seus projetos para o RS. "Ele não disse ainda o que vai fazer com o Estado", afirma. "Com os dois planos de governo expostos e diferenciados, as pessoas poderão ver a verdadeira face do candidato do PMDB."
O senador eleito Paulo Paim (PT-RS) acredita que os partidos que historicamente apoiaram a base governista, entre eles o PMDB de Rigotto, foram responsáveis por inúmeros prejuízos para os trabalhadores, como o fim da política salarial e a desvinculação do salário mínimo dos benefícios de aposentados e pensionistas e a criação do fator previdenciário, que reduziu os benefícios das mulheres em 30% e o dos homens em 20%.
De acordo com Paim, é fundamental que o eleitor entenda que as eleições de 27 de outubro apresentam uma polarização de propostas, com dois projetos completamente diferentes. "Existe o projeto aliado com o interesse dos trabalhadores, comandado por Lula e Tarso, e a proposta de continuidade da política neoliberal, representada por Serra e Rigotto", afirma o senador.

TRAPALHADAS

Veja parte de uma reportagem publicada no Jornal do Brasil em 21 de novembro de 2001 e que mostra a verdadeira vocação do candidato do PMDB.
"Um engano de R$ 2,5 bilhões no IR
Janaína Leite
BRASÍLIA - Ler com cuidado qualquer documento antes de assinar é conselho antigo, mas ainda há gente que se esquece. Por conta de uma distração, o deputado federal Germano Rigotto (PMDB-RS), substituiu vários pro-jetos de redução do Imposto de Renda por outro, im-pedindo o brasileiro de abater despesas com planos de saúde e previdência com-plementar na hora de acertar as contas com a Receita Federal. O texto final, que castigaria o bolso da classe média ao gerar uma receita extra de R$ 2,5 bilhões para o governo, seria votado pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara na próxima semana. Alertado sobre o que fizera, entre-tanto, o parlamentar retirou o projeto da pauta."