| o
poder bélico do desemprego
Katarina Ribeiro Peixoto
O tema da paz vem seduzindo forte parcela do eleitorado do Rio Grande
do Sul. Junto ao apelo a um tipo muito peculiar - e obscuro - de "paz",
segue um apelo ainda mais curioso: o Rio Grande Unido e Forte. Trazer
abstrações à baila para esclarecer o sentido político
daquilo que representa e com que se identifica faz parte de toda disputa
política e eleitoral. Restringir-se a elas, contudo, mostrou, ao
longo das tragédias do século 20, para dizer o mínimo,
o quanto medonha é a paz abstrata, uma vez experiência.Se
alguém aí do outro lado não quer paz, nem união,
tampouco força, favor comunicar, você pode ser um extraterrestre
que andou viajando pelo planeta Terra, e se assustou com a hegemonia bélica
contemporânea no nosso mundo. A você, ser de outro planeta,
desejo sinceramente boa viagem e persistência; não se esqueça
nunca de que nós, homens, terráqueos, sofremos de desigualdade
social e miséria, temos conflitos, guerras, dores, mas também
temos memória, esperança, alegria, voz, participação,
liberdade, pensamento, arte e solidariedade. É certo que não
estão fáceis os tempos para diagnosticar os humanos como
seres pacíficos... Mas é que a paz, a paz de verdade, não
é uma abstração.
O apego ao discurso puramente abstrato, que recusa abertamente a história
como princípio da política, não é uma novidade.
Quem precisa colocar-se como o novo desmemoriado, prende-se, não
sem propósito, a abstrações de um pretenso mundo
futuro. Mas, bem, será que a recusa da memória resulta da
grande novidade que supostamente iria unir "todo o Rio Grande"?
Desconhece-se por acaso a experiência do PMDB no governo do estado
do Rio Grande do Sul?
Se a recusa disfarçada ao nome do ex-governador Antônio Britto,
por parte do atual candidato do PMDB, não é ardil contra
a memória e a história dos gaúchos, seria o que,
exatamente, a grande novidade? O candidato põe-se contra o personalismo,
mas a novidade, prometida numa fala tão linear quanto vazia, parece
residir apenas em sua própria personalidade. Salvo engano, contudo,
o candidato tem uma longa trajetória de serviços prestados,
não a qualquer abstração, mas a uma concreta política
econômica, avessa a qualquer abstração que não
seja o capital financeiro, que faz o preço do gás subir
sem que façamos qualquer idéia do porquê.
Para quem defendeu, na periferia do capitalismo, durante mais de oito
anos, as políticas de desregulação econômica
ditadas pelo Consenso de Washington, certamente a paz, a união
e a força soam como falácia. E o são. O governo Fernando
Henrique, do qual o candidato da abstração foi líder
exemplar, destituiu a possibilidade de paz dos lares de milhões
de brasileiros. Sem emprego, moradia, saúde e educação,
restaram milhões de homens, mulheres, crianças e jovens
na condição de criminosos e belicistas em potencial, porque
não fazem, infelizmente, parte do "celestial" e mal distribuído
"universo da paz, da união e da força".
O candidato que hoje sustenta a união e a força como bandeiras
de sua campanha no RS esmera-se em denegar o elemento histórico
e constituinte da política local, que é a polarização
na sociedade gaúcha. Certamente a polarização no
RS é fortemente estruturada, justificada, identificada. Certamente
a polarização, aqui, difere em muito da polarização
cuidadosa e competentemente defendida ao longo da última década,
no país: a polarização entre quem come e quem passa
fome, entre quem tem direito a trabalhar e aqueles para os quais as calçadas
estão de bom tamanho, o conflito entre quem adquire terras em fraudes
cartoriais (e que o candidato do PMDB deve conhecer bem) e aqueles que
não tem terras para plantar e cultivar a sociabilidade no campo
e promover o consumo interno na economia do país.
É no mínimo muito diferente uma polarização
da outra. E a segunda é, sem dúvida, muito mais medonha
e cruel. Apostar, falaciosamente, no esquecimento histórico como
tática revela um traço tão arcaico quanto perigoso,
diante do que está em jogo no país e no Estado. A memória,
já dizia Paul Ricoeur, tem o estatuto de um milagre, já
que nosso perecimento físico nada garante de permanência
ao logos e à cultura, de modo que, quando eles perseveram, como
que um milagre acontece, já que as explicações para
tanto não estão na brutalidade, precária, presa à
contingência do presente.
Para quem, ao longo do último período, destituiu o Estado
da condição de propulsor da economia e de políticas
públicas voltadas para o desenvolvimento, endividando-o e depauperando
o mundo do trabalho, o candidato vem apresentando forte potencial de persuasão.
Talvez um "milagre" salve a concretude da vida dos gaúchos,
principalmente dos mais "polarizados" pela política hegemônica
da última década das abstrações armadas pelo
falso esquecimento. Talvez o "milagre" que, segundo o panfleto
do candidato, "desde 1988 faz mal ao Rio Grande", faça
prevalecer no debate político local a sinceridade, a coragem e
o reconhecimento da luta da cidadania que quer uma paz concreta, cuja
trajetória apenas está começando, e diante da qual
a união e a força não sobrevivem nem se justificam
no esquecimento, mas na memória, na história, na coerência
e, acima de tudo, no respeito à Política como a grande aposta
civilizatória da humanidade.
Neste mundo controlado pela "guerra infinita" que anda por aí
- e por aqui - polarizando militar e financeiramente o "bem"
e o "mal" e espalhando a miséria e a destruição,
a paz, a união e a força, abstraídas das condições
reais da população, não devem ser instrumentos para
seduzir o desaviso intranqüilo e desesperançado, sob pena
de se estar justificando a mais velha, atávica e hipócrita
forma da política, que é o autorita-rismo, a apropriação
predatória do Estado e a exclusão social, cuja história
no país e no Rio Grande revelou e revela a mais brutal violência
contra o povo, o Estado e o país.
Katarina
Peixoto é mestranda em Filosofia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS)
Os
direitos dos trabalhadores
Waldemar Rossi
Por
mais que tenhamos restrições às alianças realizadas
pelo PT, incoerentes com sua origem e objetivos históricos, não
podemos deixar de entender que a eleição do Lula é
o melhor caminho para a retomada das lutas populares, particularmente
para reconquistar os direitos trabalhistas, surrupiados durante o governo
FHC.
A luta pela revogação das medidas que alteraram direitos
previdenciários, pela revogação da lei da "flexibilização
das leis trabalhistas" (pois creio que, após as eleições,
o Senado vai apreciar e aprovar o projeto, já que ele é
majoritariamente direitista e fisiológico), a luta para revogar
centenas e centenas de Medidas Provisórias - autoritariamente ditadas
pelo "príncipe" do tucanato, o FHC - serão melhores
sucedidas se tivermos no governo gente que tem história de lutas
e sensibilidade com as causas e os direitos dos trabalhadores. Lula representa
essa esperança. Não creio que, se eleito, irá se
sujeitar a ser julgado como traidor de sua classe de origem, como são
os casos do famigerado Joaquinzão, do Medeiros, Paulinho e tantos
outros da Força Sindical.
Certo que, ao lado da eleição do Lula, pesará também
a eleição de um maior número de senadores e deputados
federais comprometidos com a mesma causa. Esperamos que o povo tenha compreendido
a importância de se elegerem parlamentares "inimigos do suborno
e que administrem a justiça para o povo", segundo o livro
do Êxodus. É fundamental que consigamos melhorar o nível
do Congresso Nacional, pois um Congresso sério, composto majoritariamente
de parlamentares que prezem a dignidade e a honradez, será determinante
para vermos atendidos nossos justos anseios, para reconquistarmos nossos
direitos. Eles serão fundamentais para o apoio às iniciativas
do futuro presidente.
Certamente, teremos dificuldades, e muitas, para alcançar tais
objetivos. Algumas delas virão do próprio leque de alianças
desenvolvido pela direção do Partido dos Trabalhadores.
Afinal, os acordos não se dão somente com o PL. Temos acordos
para todos os gostos, desde antigos desafetos da FIESP, passando por alguns
banqueiros agiotas de expressão, até com partidos que estão
no governo FHC, aliados históricos do FMI e das mega-empresas norte-americanas.
Além do que até mesmo empresários ditos nacionalistas
se sentiram financeiramente favorecidos com as mudanças efetuadas.
Será, portanto, uma batalha difícil. Queremos crer que,
num governo Lula, prevalecerá o compromisso mais antigo e de origem
que é o compromisso com a Classe Trabalhadora desse país,
da qual Lula se diz representante.
Lula vem falando num pacto social para superarmos as grandes barreiras
econômicas e sociais que vêm inviabili`-zando o Brasil. Teremos
que brigar muito para que o pacto se faça a partir dos seus compromissos
de classe, e não com muitos dos que vêm colaborando financeiramente
com sua campanha. Caberá ao Movimento Social tomar a iniciativa
de se mobilizar e exigir um "pacto social às avessas",
para que o Brasil inaugure um processo de mudanças em busca da
Justiça, do Resgate das Dívidas Sociais
Waldemar
Rossi é metalúrgico aposentado e membro da Coordenação
da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo. Artigo
publicado em www.correiocidadania.com.br
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