Jornal João de Barro - nº268 outubro/2002
ponto de vista

o poder bélico do desemprego
Katarina Ribeiro Peixoto
O tema da paz vem seduzindo forte parcela do eleitorado do Rio Grande do Sul. Junto ao apelo a um tipo muito peculiar - e obscuro - de "paz", segue um apelo ainda mais curioso: o Rio Grande Unido e Forte. Trazer abstrações à baila para esclarecer o sentido político daquilo que representa e com que se identifica faz parte de toda disputa política e eleitoral. Restringir-se a elas, contudo, mostrou, ao longo das tragédias do século 20, para dizer o mínimo, o quanto medonha é a paz abstrata, uma vez experiência.Se alguém aí do outro lado não quer paz, nem união, tampouco força, favor comunicar, você pode ser um extraterrestre que andou viajando pelo planeta Terra, e se assustou com a hegemonia bélica contemporânea no nosso mundo. A você, ser de outro planeta, desejo sinceramente boa viagem e persistência; não se esqueça nunca de que nós, homens, terráqueos, sofremos de desigualdade social e miséria, temos conflitos, guerras, dores, mas também temos memória, esperança, alegria, voz, participação, liberdade, pensamento, arte e solidariedade. É certo que não estão fáceis os tempos para diagnosticar os humanos como seres pacíficos... Mas é que a paz, a paz de verdade, não é uma abstração.
O apego ao discurso puramente abstrato, que recusa abertamente a história como princípio da política, não é uma novidade. Quem precisa colocar-se como o novo desmemoriado, prende-se, não sem propósito, a abstrações de um pretenso mundo futuro. Mas, bem, será que a recusa da memória resulta da grande novidade que supostamente iria unir "todo o Rio Grande"? Desconhece-se por acaso a experiência do PMDB no governo do estado do Rio Grande do Sul?
Se a recusa disfarçada ao nome do ex-governador Antônio Britto, por parte do atual candidato do PMDB, não é ardil contra a memória e a história dos gaúchos, seria o que, exatamente, a grande novidade? O candidato põe-se contra o personalismo, mas a novidade, prometida numa fala tão linear quanto vazia, parece residir apenas em sua própria personalidade. Salvo engano, contudo, o candidato tem uma longa trajetória de serviços prestados, não a qualquer abstração, mas a uma concreta política econômica, avessa a qualquer abstração que não seja o capital financeiro, que faz o preço do gás subir sem que façamos qualquer idéia do porquê.
Para quem defendeu, na periferia do capitalismo, durante mais de oito anos, as políticas de desregulação econômica ditadas pelo Consenso de Washington, certamente a paz, a união e a força soam como falácia. E o são. O governo Fernando Henrique, do qual o candidato da abstração foi líder exemplar, destituiu a possibilidade de paz dos lares de milhões de brasileiros. Sem emprego, moradia, saúde e educação, restaram milhões de homens, mulheres, crianças e jovens na condição de criminosos e belicistas em potencial, porque não fazem, infelizmente, parte do "celestial" e mal distribuído "universo da paz, da união e da força".
O candidato que hoje sustenta a união e a força como bandeiras de sua campanha no RS esmera-se em denegar o elemento histórico e constituinte da política local, que é a polarização na sociedade gaúcha. Certamente a polarização no RS é fortemente estruturada, justificada, identificada. Certamente a polarização, aqui, difere em muito da polarização cuidadosa e competentemente defendida ao longo da última década, no país: a polarização entre quem come e quem passa fome, entre quem tem direito a trabalhar e aqueles para os quais as calçadas estão de bom tamanho, o conflito entre quem adquire terras em fraudes cartoriais (e que o candidato do PMDB deve conhecer bem) e aqueles que não tem terras para plantar e cultivar a sociabilidade no campo e promover o consumo interno na economia do país.
É no mínimo muito diferente uma polarização da outra. E a segunda é, sem dúvida, muito mais medonha e cruel. Apostar, falaciosamente, no esquecimento histórico como tática revela um traço tão arcaico quanto perigoso, diante do que está em jogo no país e no Estado. A memória, já dizia Paul Ricoeur, tem o estatuto de um milagre, já que nosso perecimento físico nada garante de permanência ao logos e à cultura, de modo que, quando eles perseveram, como que um milagre acontece, já que as explicações para tanto não estão na brutalidade, precária, presa à contingência do presente.
Para quem, ao longo do último período, destituiu o Estado da condição de propulsor da economia e de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento, endividando-o e depauperando o mundo do trabalho, o candidato vem apresentando forte potencial de persuasão. Talvez um "milagre" salve a concretude da vida dos gaúchos, principalmente dos mais "polarizados" pela política hegemônica da última década das abstrações armadas pelo falso esquecimento. Talvez o "milagre" que, segundo o panfleto do candidato, "desde 1988 faz mal ao Rio Grande", faça prevalecer no debate político local a sinceridade, a coragem e o reconhecimento da luta da cidadania que quer uma paz concreta, cuja trajetória apenas está começando, e diante da qual a união e a força não sobrevivem nem se justificam no esquecimento, mas na memória, na história, na coerência e, acima de tudo, no respeito à Política como a grande aposta civilizatória da humanidade.
Neste mundo controlado pela "guerra infinita" que anda por aí - e por aqui - polarizando militar e financeiramente o "bem" e o "mal" e espalhando a miséria e a destruição, a paz, a união e a força, abstraídas das condições reais da população, não devem ser instrumentos para seduzir o desaviso intranqüilo e desesperançado, sob pena de se estar justificando a mais velha, atávica e hipócrita forma da política, que é o autorita-rismo, a apropriação predatória do Estado e a exclusão social, cuja história no país e no Rio Grande revelou e revela a mais brutal violência contra o povo, o Estado e o país.

Katarina Peixoto é mestranda em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Os direitos dos trabalhadores
Waldemar Rossi

Por mais que tenhamos restrições às alianças realizadas pelo PT, incoerentes com sua origem e objetivos históricos, não podemos deixar de entender que a eleição do Lula é o melhor caminho para a retomada das lutas populares, particularmente para reconquistar os direitos trabalhistas, surrupiados durante o governo FHC.
A luta pela revogação das medidas que alteraram direitos previdenciários, pela revogação da lei da "flexibilização das leis trabalhistas" (pois creio que, após as eleições, o Senado vai apreciar e aprovar o projeto, já que ele é majoritariamente direitista e fisiológico), a luta para revogar centenas e centenas de Medidas Provisórias - autoritariamente ditadas pelo "príncipe" do tucanato, o FHC - serão melhores sucedidas se tivermos no governo gente que tem história de lutas e sensibilidade com as causas e os direitos dos trabalhadores. Lula representa essa esperança. Não creio que, se eleito, irá se sujeitar a ser julgado como traidor de sua classe de origem, como são os casos do famigerado Joaquinzão, do Medeiros, Paulinho e tantos outros da Força Sindical.
Certo que, ao lado da eleição do Lula, pesará também a eleição de um maior número de senadores e deputados federais comprometidos com a mesma causa. Esperamos que o povo tenha compreendido a importância de se elegerem parlamentares "inimigos do suborno e que administrem a justiça para o povo", segundo o livro do Êxodus. É fundamental que consigamos melhorar o nível do Congresso Nacional, pois um Congresso sério, composto majoritariamente de parlamentares que prezem a dignidade e a honradez, será determinante para vermos atendidos nossos justos anseios, para reconquistarmos nossos direitos. Eles serão fundamentais para o apoio às iniciativas do futuro presidente.
Certamente, teremos dificuldades, e muitas, para alcançar tais objetivos. Algumas delas virão do próprio leque de alianças desenvolvido pela direção do Partido dos Trabalhadores. Afinal, os acordos não se dão somente com o PL. Temos acordos para todos os gostos, desde antigos desafetos da FIESP, passando por alguns banqueiros agiotas de expressão, até com partidos que estão no governo FHC, aliados históricos do FMI e das mega-empresas norte-americanas. Além do que até mesmo empresários ditos nacionalistas se sentiram financeiramente favorecidos com as mudanças efetuadas. Será, portanto, uma batalha difícil. Queremos crer que, num governo Lula, prevalecerá o compromisso mais antigo e de origem que é o compromisso com a Classe Trabalhadora desse país, da qual Lula se diz representante.
Lula vem falando num pacto social para superarmos as grandes barreiras econômicas e sociais que vêm inviabili`-zando o Brasil. Teremos que brigar muito para que o pacto se faça a partir dos seus compromissos de classe, e não com muitos dos que vêm colaborando financeiramente com sua campanha. Caberá ao Movimento Social tomar a iniciativa de se mobilizar e exigir um "pacto social às avessas", para que o Brasil inaugure um processo de mudanças em busca da Justiça, do Resgate das Dívidas Sociais

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e membro da Coordenação da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo. Artigo publicado em www.correiocidadania.com.br